por Marina Macambyra*

Deu no jornal do Campusdois professores se desligaram da Associação dos Docentes da USP porque a entidade fez uma doação em dinheiro ao Fundo de Solidariedade dos funcionários, criado para ajudar o pessoal que teve desconto de salário durante a greve.

Como não me canso de ser bobinha, confesso que fiquei um tanto chocada. Não propriamente com a ojeriza às greves e aos grevistas, hoje tão banal, mas com a atitude desses professores em relação à sua associação, uma entidade respeitável e respeitada. Então é assim? Não concordo com uma decisão, chuto a entidade? Perdi a partida, jogo no chão o tabuleiro? Não foi assim que me ensinaram.

Eu estava na assembleia de criação do Sintusp que ocorreu, se não me engano, durante uma greve. Já era sócia da Asusp, a associação que deu origem a esse sindicato tão execrado. Desde então, e lá se vão uns 20 anos, não parei de criticar o Sintusp e seus diretores, de achar absurdas certas ações, de xingar o caminhão de som que me atormenta quando estou trabalhando e de pagar a mensalidade. Aprendi que é preciso haver um sindicato que defenda o trabalhador, que um sindicato combativo geralmente não é um sindicato fofinho e que não é necessário concordar com tudo para participar de movimentos coletivos. É melhor um sindicato polêmico do que um sindicato pelego ou do que sindicato nenhum.

Apesar da amizade que tenho por alguns dos militantes históricos do Sintusp, reconheço que eles, às vezes, podem ser difíceis de engolir. Seu discurso é extremista e muitas vezes manipulador, dificilmente reconhecem seus erros e tendem à demagogia. Mas quem é que está disposto a dedicar a vida à militância como eles fazem? A dormir na sede do sindicato, acordar às 5 da manhã para fazer piquete, passar a noite escrevendo boletins, ir para cima de policial da tropa de choque para defender alguém que está apanhando? Quem de nós quer se arriscar a ser preso ou a perder o emprego? Quem aguenta ser caluniado e perseguido todos os dias, até pelas pessoas que está tentando defender? Bem, eu não. Pessoas assim são raras, e seus defeitos costumam ser proporcionais às suas qualidades.

Se eu tiver que discordar do Sintusp ou do movimento dos funcionários vou fazê-lo por dentro, participando e, se precisar, brigando. Ficar resmungando do lado de fora não vai fazer as coisas ruins melhorarem.

Sem querer desrespeitar as pessoas que discordam da atual diretoria do Sintusp por razões políticas ou metodológicas, ou até por motivos pessoais, como alguém comentou aqui no blog, as reações mais raivosas ao Sindicato costumam esconder dois sentimentos bastante simples: o preconceito contra o trabalhador e o medo à rebeldia. O primeiro é um clássico universitário, nem vale a pena discutir. O segundo é menos comentado e cresce a cada ano. Parece que aqueles que se rebelam ou simplesmente protestam são vistos com cada vez mais desconfiança. Bom é ser submisso. Esse tipo de pensamento é mais nocivo para o ambiente acadêmico do que o mais botocudo dos sindicatos.

Voltando à Adusp e seus dissidentes, é interessante notar que a tal doação foi para um fundo de solidariedade, para ajudar funcionários em dificuldades. Não foi o fundo dos piquetes, nem para comprar marretas derrubadoras de paredes. Quando se trata de trabalhadores, nem solidariedade pode mais.

*Marina Macambyra é Bibliotecária, funcionária da Escola de Comunicações e Artes da USP desde 1982. Atualmente tem escrito no blog Dia de Greve

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