Eleições para reitor


[…]O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
[…]O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
(Chico Buarque e Milton Nascimento)

Numa atitude inédita, a Reitoria da USP adiou o segundo turno das eleições, o marcando para amanhã (11/11), na Biblioteca do Memorial da América Latina, no bairro da Barra Funda, portanto, em local estranho à Universidade. Já seria inusitado transferi-lo para outro prédio da Universidade que não o CO (Conselho Universitário).

Nada justifica o que está fazendo a Reitoria, visto que manifestações públicas são legítimas, e fazem parte da vida democrática de qualquer instituição. Mas este é o ponto, a USP não é minimamente democrática, pelo contrário, vale lembrar que trata-se da Universidade mais autoritária e autocrática entre todas as públicas do Brasil. Sendo assim, este gesto de transferir as eleições para a Biblioteca do Memorial da América Latina, nada tem a ver com as manifestações que ocorreram hoje diante da Reitoria, até porque elas foram pacíficas. Tudo indica que se trata de uma manobra que compromete o processo eleitoral, cuja legitimidade, com ou sem conflitos, é bastante duvidosa.

Certamente a Reitoria alegará que o ato público promovido por estudantes e funcionários no dia de hoje, como a razão do adiamento e da transferência de local. No entanto, tudo acena para razões outras, inconfessáveis. Aliás, só isso para explicar a baixa quantidade de conselheiros presentes na Reitoria hoje, bem como a tranquilidade da maioria deles, que em geral agem de forma histriônica diante de qualquer contestação ao poder da casta burocrática. Some-se a tudo isso, a rapidez e a facilidade com que a Biblioteca do Memorial da América Latina foi cedida. Alguém dúvida que haverá aparato policial amanhã por lá?

Do ponto de vista ético o que era ilegítimo, está ficando mais ilegítimo ainda.

Veja e-mail enviado pela Reitoria convocando o colégio eleitoral para o novo local de votação:

Senhor(a) Conselheiro(a)

Em nome da M. Reitora, Profa. Dra. Suely Vilela, convoco V. Sa. para a continuidade do processo eleitoral do segundo turno da eleição para composição de lista tríplice de nomes para a escolha do(a) Reitor(a), conforme art. 21 da Resolução nº 5802, de 09 de outubro de 2009, a realizar-se no dia 11 de novembro, na Biblioteca do Memorial da América Latina, localizada na Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, São Paulo-SP (entrada pelo Portão 6).

O primeiro escrutínio terá início às 13h30 e os demais, se houver, seguirão a citada Resolução.

Atenciosamente,

 

Profa. Dra. Maria Fidela de Lima Navarro
Secretária Geral

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Face os acontecimentos de hoje (adiamento do segundo turno das eleições para reitor), representantes discentes da pós-graduação defendem (em nota pública que publicamos abaixo), o cancelamento das eleições para reavaliação do processo eleitoral, uma vez que o ambiente criado pela Reitoria favorece um processo mais antidemocrático do que já é.

Nota Pública

São Paulo, 10 de novembro de 2009

Em virtude da não realização do segundo turno da eleição para reitor conforme previsto para o dia de hoje no prédio da reitoria da USP, impôs-se a necessidade de os representantes discentes de pós-graduação junto aos Conselhos Centrais e Conselho Universitário deliberarem imediatamente acerca do processo eleitoral ainda em curso, devido à impossibilidade de convocação da assembléia em tempo hábil.

Recordamos que houve consulta direta aos pós-graduandos que indicou voto no candidato Francisco Miraglia e que assembléia geral dos pós-graduandos encaminhou que os representantes discentes da pós deveriam votar no vencedor da consulta, uma vez que esta candidatura se comprometia com a democratização da estrutura de poder.

Contudo, nós, representantes discentes da pós-graduação, nos vemos impedidos de participar de um processo eleitoral que se realizará sob contingências, tais como escolta e revista, e que impossibilitará manifestações públicas devido ao sigilo de loca e provável reforço de aparato repressivo.

Cabe, neste momento, conclamar a universidade e a comissão eleitoral, em particular, a cancelar o pleito e reavaliar o processo de eleição.

Felipe Pereira Loureiro

Marcelo Schneider

Pedro Silva Barros

Walter de Andrade

Ato de protesto convocado por funcionários e estudantes contra o processo eleitoral para escolha do novo reitor da USP, realizado hoje, conseguiu boicotar a primeira rodada das eleições.

Aproximadamente 500 pessoas colocaram-se diante das entradas do prédio da Reitoria, com carro de som, discursos, música, batuque, teatro, paródias etc., forçaram a Reitoria a adiar a votação, deixando-a agendada para amanhã, porém sem local definido. Assim, estudantes e funcionários conseguiram adiar a vergonha que é processo eleitoral uspiano por um dia.

Seja onde for o local que a Reitoria marcar a votação, a luta por democracia na universidade e boicote das eleições continua.

10/09, às 11horas, em frente à Reitoria, ATO PÚBLICO CONTRA A ELEIÇÃO PARA REITOR

A mais autocrática das universidades públicas brasileiras reúne-se hoje, praticamente em sistema de conclave, para escolher os nomes que comporão a lista tríplice a ser submetida ao governador de São Paulo.

Face a isso, ocorrerá ATO PÚBLICO em frente à  Reitoria, para protestar e boicotar a eleição que é ponto máximo da ditadura uspiana.

Leitores do blog deixaram comentários sobre as eleições uspianas, bem como a análise do professor Ruy Braga aqui publicada. Uma delas é do escritor Guilherme Scalzili, que reproduziu nos comentários texto veiculado em seu blog.

Publicamos abaixo esses comentários:

A ditadura uspiana

Guilherme Scalzilli

A Universidade de São Paulo elege novo reitor em ambiente de conclave. O sistema é indireto, por colegiado, com participação majoritária de professores e minoritária de alunos e funcionários (que, somados, não chegam a um terço dos votos). (mais…)

Em carta encaminhada para colegas docentes, Ruy Braga (professor do Departamento de Sociologia da USP) analisa o resultado do primeiro turno das eleições que escolhe o sucessor da inábil Suely Vilela. Solicitamos autorização ao professor Ruy Braga para publicar a análise em nosso blog, e gentilmente ele permitiu que assim procedêssemos. Dessa forma,   segue o texto:

Foto R.B.

C@ros colegas.

Antes de tudo, gostaria de cumprimentar todos aqueles que se engajaram nas campanhas dos diferentes candidatos a reitor e que garantiram um consistente quorum para a eleição democrática promovida pela ADUSP em nossa faculdade. Em especial, fico feliz em saber que 202 colegas na FFLCH decidiram participar dessa eleição e que, desses, 93 votaram em um conhecido sindicalista e 23 em um “anticandidato” marxista, crítico e radical. Meus sinceros parabéns àqueles colegas que garantiram a abertura das urnas nos três prédios e sustentaram uma campanha empreendida de forma verdadeiramente democrática e respeitosa.

Contudo, e mesmo correndo o risco de contrariar colegas que muito prezo (mais…)

O Bonde da História, coletivo formado por estudantes da Faculdade de História da USP, recentemente leu manifesto durante reunião entre estudantes, funcionários e professores da História.
Publicamos o referido manifesto, conforme segue abaixo.

Organizando o pessimismo

A universidade resistiu ao primeiro autoritarismo, sobreviveu ao segundo; ainda não há sinais de que esteja decididamente enfrentando o terceiro, até pelo contrário, parece ter assumido a modernização tecnocrática como perfil definitivo. Nesse caso, a resistência se transformará em incorporação. É a hipótese que está em questão. Se confirmada, essa “velha senhora” não morrerá com dignidade”. (Franklin Leopoldo e Silva, A Experiência universitária entre dois liberalismos)

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Desde o dia 06 de junho de 2009, digamos assim, ficou escancarado o abismo existente entre os gestores da Universidade de São Paulo e a chamada comunidade acadêmica. Após o desenvolvimento e o encerramento da greve, as categorias e entidades representativas passaram a mirar a crítica nas eleições para reitor, exigindo uma ampliação da democracia e uma alteração na estrutura de poder.  Longe de querermos questionar a validade e a legitimidade dessa pauta, nós, o comando de mobilização da história, perguntamos, a fim de ampliar a discussão: Não seria necessário, para podermos falar em “comunidade uspiana democrática”, questionarmos antes o modo de funcionamento da USP bem como as formas pelas quais nos inserimos nessa engrenagem? (mais…)

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