*Reproduzimos aqui o texto publicado no “jornal” Folha da São Paulo em resposta ao vergonhoso artigo publicado pelo reitor da Universidade de São Paulo João Grandino Rodas, vulgo 4Rodas, no mesmo jornal(aqui) entitulado Mecenato e Universidade.
por Ricardo Antunes e Marcus Orione


Por que as universidades públicas são as que geram conhecimento, ciência e reflexão de ponta, e não as infindáveis escolas privadas?


Em reiteradas oportunidades, o reitor da Universidade de São Paulo (USP) tem-se manifestado a favor de doações de “mecenas” para a modernização do ensino universitário. Chegou a fazer tal declaração, eivada de significados e consequências, em momento tenso e de greve nas universidades paulistas.

Utiliza-se como argumento central o fato de que seria impossível a manutenção da universidade pública sem subvenções de particulares, do novo “mecenato”. Pela parceria público-privada, as universidades deslanchariam. Nenhuma repercussão negativa haveria, tem dito, como resultante desse auxílio desinteressado dos doadores. E tudo isso, ainda segundo advoga o reitor, deve ser pensado “sem ideologias”, ainda que a manifestação tenha se dado no contexto de corte do ponto dos servidores públicos em greve -o que conspira contra a essência desse direito.

Como seria termos um curso de ciências sociais mantido por uma grande montadora? Ou, ainda, discutirmos as complexas relações do direito do trabalho, sob o mesmo patrocínio?
O ensino universitário tem papel vital para o desenvolvimento de qualquer país. É óbvio que, para a geração desse conhecimento, há necessidade de recursos.

No entanto, ao se recorrer ao dinheiro privado, há evidente possibilidade de comprometimento dessa missão. Na pesquisa, subvenções particulares não raro levam à distorção dos fins públicos. O dinheiro investido, em geral, é destinado a áreas de interesse do próprio setor privado, relegando a um segundo plano projetos de natureza pública. Assim, ao invés de o país determinar os rumos do que se pretende, estrategicamente, pesquisar, quem o faria seriam os investidores, os tais novos mecenas, as corporações.

O ingresso do dinheiro privado nas universidades públicas ameaça também a liberdade de cátedra. O ato de ensinar, de forma livre e sem pressões de interesses, é um dos pilares do avanço das ciências humanas, exatas ou biomédicas.

Somente a partir da liberdade de expressão nas salas de aula é possível acreditar-se na viabilidade de a universidade contribuir para a construção de outra sociedade. Com a entrada de verbas de instituições privadas, gradualmente, o que se viabilizaria é que aqueles que não partilham de seus pressupostos ideológicos ficariam mais fragilizados e, com o tempo, escassos na universidade pública.

Há outra questão vital que se desconsidera: por que as universidades públicas são, de longe, aquelas que geram conhecimento, ciência e reflexão de ponta, e não as infindáveis escolas superiores privadas que se espalham pelo país? Importante seria uma pesquisa desinteressada enfrentar livremente esse tema. Mas o reitor da USP tem acrescentado, “isento de ideologias”, que a universidade pública ganharia se seguisse os passos das escolas privadas de “renome”.

Portanto, a preservação da integridade da universidade pública depende, sim, do aumento de recursos públicos, bem como da remuneração digna de seus docentes e de seus funcionários – e esse é o desafio atual.

Se a proposta do reitor da USP fosse efetivada, estaríamos mais próximos de uma universidade a serviço do mercado, começando pela via do mecenato.

RICARDO ANTUNES, 57, é professor titular de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

MARCUS ORIONE GONÇALVES CORREIA, 45, é professor associado da Faculdade de Direito da USP e juiz federal.

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