O jeito Serra de tratar à universidade

Por que a Polícia ainda não entrou na USP?

Por Demian Alves Lima

A pergunta é retórica, posto que a resposta é simples: eleições. Se dependesse da vontade exclusiva do reitor João Grandino Rodas as cenas lamentáveis de 9 de junho de 2009 já  teriam se repetido e com bem mais violência, uma vez que a atual ocupação da Reitoria dá-se por iniciativa dos funcionários da Universidade, ou seja, é uma questão de classe e preconceito, como quem ocupa está alguns andares abaixo, não há que se ter condescendência. E não é possível esquecer o passado recente de Rodas, que nos últimos três anos colocou a Polícia pelo menos duas vezes dentro da USP, sendo uma de forma direta outra sob sua inspiração e pressão.

Assim, não existe reitor do diálogo. Há uma conjuntura que segura a sua mão. Metaforicamente, poderíamos dizer que o patrão não quer a PM dentro da USP neste momento, afinal de contas Rodas não é, nem remotamente, o reitor escolhido pela vontade da comunidade uspiana (fato que seria o esperado em qualquer universidade séria e democrática, o que a USP, também nem remotamente, não é), ele foi indicado pelo ex-governador José Serra a partir de uma lista apresentada pela Universidade, lista esta advinda de escrutínio onde os eleitores representam parcela ínfima da comunidade universitária, sendo essa uma da razões de a USP ser conhecida como a mais conservadora das universidades públicas brasileiras. E as razões de o “chefe” de Rodas não desejar a PM dentro da USP agora passam ao largo de serem de princípios, afinal, falamos de um dos governadores que mais acionou a polícia contra tudo e contra todos que opuseram resistência aos seus atos quando era inquilino no Palácio dos Bandeirantes. Dessa forma, Serra e seu partido sabem da polícia que ajudaram a formar em São Paulo, sabem que ela é despreparada e violenta, porque assim quiseram-na, portanto, sabem que ela protagonizaria cenas de selvageria caso viesse para retirar a manu militari os funcionários da Reitoria ocupada ou impedir piquetes, e isso é tudo o que Serra não quer para a sua cambaleante campanha à presidência da República. E é por isso, e só por isso, que Rodas até agora não nos deu a ver bombas de gás lacrimogêneo, tiros, spray de pimenta, porrada, prisões etc. etc. etc.

Quanto ao Sintusp, a meu ver são valorosos e dignos, mas cometeram alguns erros nos últimos anos, por exemplo, quando avaliaram equivocamente as circunstâncias do V Congresso da USP e terminaram por ajudar a enterrá-lo. Mas nada disso é suficiente para me opor ao Sintusp e seus representados. Se na USP ainda subsiste traços que nos permitem denominá-la pública, muito, mas muito se deve aos funcionários desta Universidade. E por isso me parece evidente que o impasse a que chegamos neste ano tem o dedo do reitor e daqueles que apoiam-no. Retoricamente ele se diz disposto ao diálogo, mas os gestos que efetiva não passam de provocação e escárnio, transformando suas palavras no mais deslavado cinismo. O que ele parece querer é desgastar a imagem do Sintusp, desfibrá-lo para destruir a dignidade e a capacidade de luta dos funcionários da USP, ou seja, docilizar o Sintusp da mesma forma que o projeto neoliberal logrou fazer com a maioria dos sindicatos brasileiros.

Por fim, não posso aceitar a posição recuada dos professores da USP em relação ao que a reitoria tenta fazer com os funcionários. Será que eles não compreendem que não se trata de um problema pontual, que o que se pretende é destruir o Sintusp para desobstruir o caminho a um projeto de universidade onde pouco restaria de público? Será que eles não se veem como servidores, quando de fato o são, e por preconceito se desconectam das questões que neste momento permeiam os funcionários? Será que eles não sabem que a qualidade não depende somente da sala de aula, mas de todo um suporte vindo de profissionais técnico-administrativos de alto nível? Falamos sempre das três categorias existentes na universidade: professores, estudantes e funcionários (nessa ordem para os preconceituosos), no entanto, a universidade não existe sem as três. A dissolução de uma é a de todas; a luta justa de uma é a de todas, aliás, de uma forma geral funcionários e estudantes sempre estiveram ao lado de professores em suas demandas por melhores salários e condições de trabalho. A recíproca poderia e pode ser verdadeira.

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