A Farsa do Inclusp

Por Roberto Ótemo de M. e Souza

Perto de completar 5 anos o INCLUSP (Programa de Inclusão Social da USP) tem resultados muito aquém do satisfatório. Em comparação com Universidades Federais que adotaram o sistema de cotas a USP apresenta números irrisórios (e até risíveis) e mesmo se comparada com a própria universidade, antes da implementação do projeto, não há mudança significativa do cenário.

Em 2007 uma audiência publica fora marcada para que a Universidade de São Paulo explicasse ao público interessado os avanços alcançados pelo INCLUSP. Tal audiência foi uma das vitórias da ocupação e greve daquele ano, e aconteceu quando ainda havia certo fervor político nos corredores universitários.

A audiência começou com uma fala da pró-reitora de graduação, que a partir de um material oficial, comemorava os números conseguidos até aquele dia pelo programa.

Logo após, na fala destinada aos estudantes a representante do DCE cedeu seu espaço para um respeitado e conhecido militante do movimento negro.

Ele inicialmente pediu desculpas por não trazer material próprio, e educadamente pediu a pró reitora que cedesse seu material para que ele fizesse a fala.E assim sendo, ele através dos mesmos dados e números antes apresentados, conseguiu expor toda falácia na qual estava montada o INCLUSP.

Essa introdução se faz necessária, para atentar para o fato de que números e porcentagens são sempre suscetíveis a interpretações, e ao contrário do que a imprensa gorda e a grande leva de administradores financeiros gostam de dizer, não é nem um pouco objetiva ou real.

Mas vamos lá, exercer um pouco nosso lado cínico e levantar alguns números interessantes desse, que segundo a USP, é o melhor programa de inclusão social, que poderia ser pensado.

O INCLUSP foi implementado em 2007,ano que começa uma queda exponencial de inscritos na FUVEST oriundo da escola pública. Em 2006, ainda sem INCLUSP, 45,12% dos inscritos no vestibular FUVEST haviam sido alunos do ensino público, em 2007 o número caiu para 39,02%, em 2008 para 25,03% e em 2009 sobe para 33,15%. Em relação aos candidatos auto-declarados negros a queda foi de 24,23% para 18,31% em 2009, valendo ressaltar que desses quase metade não foi aluno da escola pública.

Se olharmos para os alunos que conseguiram ingressar na USP, os números são inconclusivos, afinal de 2006 para 2007 o número de oriundos do ensino público cresceu cerca de 2% (24,6% – 26,7%), em 2008 voltou a cair em 2008 para 26,3% e agora em 2009 cresceu para 30,1%. No entanto não é exagero afirmar que as novas mudanças no vestibular apontam para um horizonte onde essa média volte a cair.

Analisando a renda familiar desses ingressantes percebemos também que a situação nada mudou. Apesar de uma queda nos índices de salário entre os acima de 7 salário mínimos, a diferença ainda é gritante. 0,88% tem uma renda inferior a 1 salário mínimo, 5,29% entre 1 e 2 salários, e 2 e 3 com 8,41%, resultando num total de 14,58% de alunos, que em uma leitura pouco criteriosa, poderiam ser considerados como desfavorecidos financeiramente.Esse número, que enfatizo é até que gentil com a FUVEST, está tecnicamente empatado com os 14,15% de alunos com uma renda de 10 a 14 salários mínimos! E caminha bem perto dos 12,73% que tem uma renda superior a 20 salários mínimos. E se for mesmo para fazer generalizações, podemos pegar essa minoria desfavorecida e comparar com o restante da universidade, que tem uma renda financeira boa e somam 85,42% da universidade.

Esses dados, colhidos e divulgados pela FUVEST em seu próprio site, ainda escondem que a maior parte desses alunos com renda baixa estão marginalizados em cursos específicos, como os da FFLCH e FE, e se caracterizam como uma minoria ainda menor em cursos como direito, medicina e engenharia.

Indo na contramão do resto do país, a USP insiste em caracterizar políticas afirmativas de acesso como problemáticas e até racistas.

Para tal argumento tracemos uma paralelo. A UFBA adotou, já há alguns anos, a política de cotas raciais e sociais. Como critério, as cotas raciais seriam destinadas a 50% dos vestibulandos, porcentagem que segundo o IBGE é a de total de negros no estado. Hoje a UFBA já consegue reproduzir em seus campus, a realidade social e étnica do resto do estado.

Em São Paulo, ainda segundo o IBGE, o número de auto declarados negros beira os 33%, e em sua maioria são cidadãos da periferia do estado. Na USP, o número de auto declarados negros hoje é de 14,26%, o que mostra que apesar de ter aumentado cerca de 2% desde 2006 (12,47%-14,26%) ainda não conseguiu alcançar nem metade do ideal.

Quem será o racista na história?

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