Pequena nota sobre Assembléia dos Professores do Estado de São Paulo

Por Diego Navarro

Avenida Paulista às duas da tarde. Sol escaldante.

Nas calçadas, contrastando com o habitual corpo burocrático de funcionários engravatados, é possível observar homens e mulheres estranhos àquele cenário. Usam bonés, camisetas e bolsas de tamanho exagerado. Definitivamente não são executivos.

O som cotidiano de buzinas, motores e passos apressados também tem algo de diferente. Em cada esquina é possível ouvir um estridente apito, e para os ouvidos mais aguçados, ecoa em algum lugar um grito. Ou seriam vários?

Avançando pela esquina da Rua Augusta o grito se faz cada vez mais presente e os apitos já começam a sufocar qualquer barulho do trânsito. Mas só chegando ao vão do MASP que podemos observar a origem daquele turbilhão caótico.

A frente dum carro de som, milhares de pessoas entoam palavras de ordem:

– SERRA A CULPA É SUA , A GREVE CONTINUA

– SERRA A CULPA É SUA, PROFESSOR NA RUA

– VEM,VEM, VEM PRA LUTA VEM

Era a assembléia dos Professores da Rede Pública do Estado de São Paulo, que às 14h, momen toque estava marcada para começar, já contava com pessoas o suficiente para lutar todo vão do MASP.

Em pouco tempo a multidão começava a ocupar uma das faixas da avenida paulista e a polícia tentava, em vão, frear o movimento, que gritava:

– ABAIXO A REPRESSÃO, PROFESSOR NÃO É LADRÃO

O vão não foi o bastante, tampouco uma só faixa, em pouco tempo a multidão se alastrava pela outra via, e os policiais, em ridícula inferioridade numérica, já não tentavam mais conter a multidão, mas tão somente contornar o trânsito.

Após alguns atritos, os fardados cinzentos, em marcha envergonhada, abandonavam a rua e se recolhiam na esquina da Paulista com a Coelho Neto.

Foi também nesse momento, que em unanimidade, os trabalhadores da educação paulista aprovaram a continuidade da greve.

Diz a polícia que não passavam de 12 mil. Diz a CET, algo em torno de 8 mil. Diz o Governo do Estado que apenas 1 % do professorado paulista está paralisado.* Aquele que escreve este breve relato não possui as técnicas necessárias para quantificar multidões, mas estava lá na Paulista e viu policiais transtornados ao não conseguir parar os professores, que após assembléia decidiram sair em ato pela Paulista, até o centro da cidade. Viu também que a extensão dessa marcha era suficiente para cobrir da Avenida Ipiranga até metade da Consolação.

Se eram 10, 20, 30 ou 40 mil, não sei. E pouco importa. Afinal quem se preocupa com quantidade são os dirigentes públicos. Pouco sabem que o povo, enquanto sujeito coletivo, lutando por seus direitos não é, e nunca será, quantificável.

Diego Navarro

* Sobre a afirmação do Governo do Estado de que menos de 1% dos professores estão paralisados, lembro que a rede é composta de 220 mil docentes. Seguindo o governo, menos de 2.200 professores estão em greve. Bem, os próprios números da Polícia, que não são lá muito confiáveis, deram 12 mil professores (apesar de visualmente todos saberem que havia muito mais). Então, de onde surgiram tantos professores além dos menos de 2.200 do Governo?!! Segundo pergunta de um amigo, a APEOESP teria oferecido churrasco de graça? Nem assim, o fato é que José Serra e seu Secretário de Educação, o lobista Paulo Renato Souza, não bastasse o desrespeito constante ao professorado, ainda conseguem ser patéticos.

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