Oligarquia Racista x História de Lutas e Conquistas

Oligarquia de agora e de antes: quase nada mudou

Por José Quibao Neto*

Não raro ouvimos e lemos absurdos da elite brasileira, que insiste em ser oligárquica – até quando não se sabe. Além do fato de não seguir, e nem sequer pretende acompanhar, o “bonde da história” – por ainda se tomar como oligárquica, tanto no discurso como na ação – essa ‘elitezinha’ adora uma polêmica quando se trata de direitos à população, principalmente no que tange às ações afirmativas.

Há tempos, o Ex-Arena e Ex-PFL,  atual DEM tenta barrar as Cotas Raciais, que propõe vagas a estudantes negros na universidade – tanto pública, quanto particular. Temos entendido que este tipo de ação afirmativa tenta reparar um erro histórico cometido com os negros, e que na sua maioria se encontram em situações desfavoráveis em relação aos brancos. Assim, a última investida do DEM[o] contra os negros foi abrir um processo no STF, alegando que as Cotas Raciais são inconstitucionais, pois reserva as vagas “democráticas” para uma camada da população, negando assim o “princípio de igualdade” entre candidatos, existente no vestibular.

Faz-se necessário explicar onde queremos chegar com este texto: analisar e escorraçar a afirmação a-histórica do Senador Demóstenes Torres (DEM[o]-GO), num discurso no STF, cujo teor responsabiliza os próprios negros pela escravidão. E não para por aí, além deste ABSURDO histórico, o “sinhôzinho” Demóstenes ainda diz que a miscigenação entre brancos e negros aconteceu de forma natural e tranquila: “Nós temos uma história tão bonita de miscigenação… [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual.” “Mais consensual”? Ora, mais consensual para os senhores de engenho, seus filhos, e seus jagunços que impunham seu desejo com mãos de ferro sobre as mulheres negras.

Outra análise que também ajuda a compreender melhor a situação: depois da máscara do “partido que não participara” do mensalão cair, visto o escândalo envolvendo o José Roberto Arruda (ex-governador do DF), aparece Demóstenes dando esta resposta buscando auxilio na parte mais reacionária e conservadora da sociedade. A partir de agora, é bem possível que o DEM[o] calque  todos seus discursos num moralismo nacionalista para tentar manter seu eleitorado – seus irmãos latifundiários racistas. Portanto, vemos a vitória do discurso da senadora Kátia Abreu (DEM[o]-TO) dentro do partido: o Brasil necessita de um ruralismo reacionário.

É interessante observar, dessa forma, que a fala do senador Domóstenes Torres (DEM[o]-GO) é emblemática e representa o pensamento de uma parte da população que é rica, racista e escravocrata. Devemos lembrar também, que ainda existe mão de obra escrava, principalmente no campo. No estado de Goiás (não por acaso o estado em que o Senador Demóstenes atua), por exemplo,  há ocorrências deste tipo de exploração – em 2007 e 2008 há 19 ocorrências denunciadas, sendo que 1.571 foi o número de pessoas relatado nas denúncias e 1525 trabalhadores libertos do serviço escravo[1].

Negros escravos e o mercado colonial:

Ao dizer que os negros, junto aos brancos, eram os responsáveis por fornecer escravos para cá, ominoso senador se esquece – ou faz questão de não lembrar – que o Continente Africano também foi alvo dos colonizadores ocidentais, os quais lucravam de fato com a escravidão. Estes mesmos colonizadores eram os donos de “apenas” TODOS os meios (operacionais e de transporte) para trazer os escravos para cruzar o Atlântico. Não se nega que havia, sim, tráfico de escravos na África. Entretanto a escravidão no Atlântico [PC1] alcançou grande intensidade: uma relação gigantesca com o capitalismo moderno, que acabou exacerbando os mecanismos de exploração interna no Continente Africano.

Além disso, o professor de História na universidade de Paris, Luiz Felipe de Alencastro, nos conta em um artigo que a Inglaterra promoveu um pacto no Atlântico proibindo a comercialização de escravos,  ao mesmo tempo que a oligarquia escravocrata brasileira promoveu o chamado Tráfico Negreiro, “onde mais de 760 mil indivíduos vindos da África foram trazidos entre 1831 e 1856, num circuito de tráfico clandestino”. Ademais, em 1848 o Brasil organizou uma expedição de invasão à Angola, possibilitando assim um meio de tráfico, relançando este tipo de mercado.

Resistência e os primeiros lutadores

Nestes cinco séculos, o povo negro vem sofrendo com as consequüências deste mercado que os colonos brasileiros lucravam. Entretanto, não calado: o povo negro sempre se mostrou resistente e trabalhador. Na História, não é difícil de encontrar documentos que dissertam sobre os Quilombos e pequenas paradas na rotina das fazendas de engenho. A luta por melhorias nas condições do trabalho, pelo menos no Brasil, é um processo iniciado pelos negros. E essta resistência tem seu marco em Zumbi e Dandara.

Na Ditadura Militar, o Movimento Negro esteve sempre presente: nas ruas, nas arquibancadas dos estádios, nas indústrias etc.  E hoje, a luta é por uma inserção do negro na sociedade de forma igualitária e justa, sem preconceitos e de forma ampla, que atinja de fato as camadas mais pobres. Não é demais ver que hoje os principais organizadores de cursinhos populares – que promovem o ensino para inserção da camada pobre à Universidade – é o Movimento Negro.

Porém, a luta não é apenas do negro, mas de todos! Onde há racismo, que nos façamos negros!

Um exemplo da luta cotidiana nos dias atuais

Sábado, dia 6/03/2010, ocorreu uma histórica comemoração de um ano do Movimento Social e Negro UneAfro. Começou logo cedo, e às 10 (dez) horas da manhã, tudo estava a postos no Sindicato dos Químicos, em São Paulo. Houve uma Aula Pública, que então iniciava o ano letivo dos cursinhos populares organizados pelos companheiros da UneAfro. O resultado foi surpreendente: juventude organizada e ávida por justiça social; vale lembrar que o dia estava chuvoso e era sábado de manhã, e aquele Sindicato estava lotado. A juventude e velha-guarda do movimento estavam realizando a famosa “práxis” de Paulo Freire: uma reflexão dialógica junto a uma ação decorrente, pois logo depois, saímos e fomos às ruas gritar o direito a Cotas.

Na mesa de debate havia várias figuras importantes para os movimentos negro e social: Companheira Cidinha da UGT (União Geral dos Trabalhadores) – que inclusive estava no dia 3/03/10 no STF, e nos relatou como as mulheres (incluindo ela) reagiram à fala de Demóstenes, e por fim mostrou com dados que a pobreza no Brasil tem cor, sim.

O companheiro Minduin da Gaviões da Fiel – Movimento Rua São Jorge – marcou presença na mesa mostrando que torcida organizada também é militância. O Círculo Palmarino deu uma aula sobre militância de esquerda, tanto nas práticas dialógicas como nas ações, e, sobretudo, mostrou que Cotas é um processo revolucionário na inclusão do oprimido. “Aliado G nunca se cala”; ele também marcou presença na mesa, mostrando que problemas sociais, jamais serão resolvidos com atitudes individuais, mas sim coletivas.

A UNEGRO também falou na importância do movimento de acúmulo de lutas e vitórias, e também ressaltou a importância da consciência coletiva, no sentido de que o branco, o amarelo, o vermelho também tem que abarcar a luta racial, pois o problema do negro, é o problema de todos. E mais, dois representantes das faculdade conveniadas ao processo de Cotas, falando abertamente sobre as vantagens de ser ter essa camada da população dentro da universidade, reafirmando o quão valioso é ter dentro da faculdade lutadores que façam a extensão do ensino. E por fim, o Militão, da MNU, deu um panorama histórico do Movimento Negro e seus avanços. Além disso, houve várias intervenções de outros políticos importantes do quadro da esquerda brasileira, como Ivan Valente.

Consideramos, portanto, que respondemos a altura o demente Demóstenes neste dia, porém temos que dar respostas todos os dias! Respostas que nos afirma enquanto lutadores; respostas que nos libertam e lubrificam as engrenagens dos movimentos. Ainda há muito o que lutar, mas para quem foi neste dia, sentiu-se confortado e revigorado pelo diálogo exposto.

Salve a Luta do Povo Brasileiro!

*José Quibao Neto (Sujeito Coletivo) é estudante de Letras da USP e colaborador deste blog

[1] FONTE: Setor de Documentação da CPT, 23/04/2009.


Veja vídeo com a defesa do Luis Felipe Alencrastro das cotas raciais, em audiência pública no STF:

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