Foto: Apeoesp

Assembléia que decidiu pela greve, em 05/02/10 (Foto: Apeoesp)

Professores entram em greve. Difícil prever se ela será exitosa

Por Ricardo Maciel*

“215 mil professores da rede estadual de SP entraram em greve na última 6º-feira por 34,3% de aumento. Há 16 anos no poder, o PSDB paulista paga a um professor de 1a. a 4a. séries um piso de R$ 785,50 (carga de 24 horas semanais); com gratificações, o total vai a R$ 958,53. Em fim de carreira, mantida a mesma jornada, o salário não passa de R$ 1.153,21. A tentativa tucana de substituir a agenda de reajustes pelo critério do mérito soa como um passa-moleque na categoria, prejudicada pelo arrocho imposto por sucessivos governos do PSDB no setor da educação. Levantamentos de 2007 já mostravam que os salários do professorado paulista eram 39% inferiores aos de seus colegas do Acre. Aos tucanos e ventrílocos que omitem as perdas acumuladas e acusam a ‘ natureza política’ do movimento, lideranças da Apeoesp respondem de forma taxativa: ‘Paguem e a categoria volta ao trabalho.’”**

Em assembléia realizada ontem (05/03), professores da rede pública de São Paulo decidiram entrar em greve. As reivindicações são justas***, afinal 16 anos de gestão tucana tornaram a educação paulista em terra arrasada. Não que ela esteja bem em qualquer lugar do país, pelo contrário, vive uma crise constante e permanente. No entanto, em São Paulo o cenário é dramaticamente pior.

O estado mais rico da federação tem um dos piores sistemas de ensino, refletido por todos os indicadores que se olhe. Essa triste condição deve-se em larga medida à gestão neoliberal, tecnicista e elitista de sucessivos governos do PSDB, culminando com a atual onda de ódio aos professores, levada a termo por um governador que não tem política de desenvolvimento para o estado, exceto uma ambição desmedida pelo poder, tornando sua gestão num enorme canteiro de obras, cuja lógica não é o bem-estar da população, mas medidas paliativas que empurram o problema para frente, ao mesmo tempo em que servem como vitrine capaz de angariar votos de incautos. Nesse diapasão, políticas públicas que cheguem aos que mais precisam foram descartadas, como o estrago causado pelas chuvas nas periferias de São Paulo, apenas para citar um exemplo dentre tantos possíveis. Assim, com a educação não é diferente.

Nos últimos anos todo um trabalho de maquiagem foi feito em cima da rede pública de ensino. Sendo a maquiagem mero acessório, claro está que o principal não mudou, ou seja, os números que medem o sistema continuam entre os mais baixos do país. De forma que para manter a ilusão da maquiagem, José Serra, contanto com a ajuda da mídia, construiu todo um discurso para atribuir a responsabilidade pela porcaria que é a educação em São Paulo na conta do professorado. Nada mais apropriado, afinal os professores são a parte mais fraca, e para quem é indiferente à coisa pública (no sentido forte do termo) e se guia pela frieza tecnocrática, agravada pelo fato de o PSDB ser representante do capital financeiro internacional no Brasil, escolhê-los como bode-expiatório parece lógico para quem não está nem aí para tudo o que diz respeito ao povo.

Difícil prever se esta greve terá êxito, ainda que motivos sobrem, como condições de trabalho precárias, remuneração aviltante, desrespeito a leis e acordos ignorados pelo mantenedor, desvalorização e proletarização do professor. No entanto, grande parte daqueles que aderirem à greve serão alvo de punições e perseguições de dirigentes de ensino, parte dos diretores de escola, os que não aderirem sofrerão pressão para assim permanecerem; o governador dirá que a greve é política, a mídia tratará de reforçar isso através de cobertura enviesada, sem contar um tom acima de seus especialistas em educação jogando mais responsabilidade aos professores pelas mazelas da Educação paulista (responsabilidade que eles têm, mas ínfima se comparada à ação tucana nos últimos 16 anos), buscando jogar a opinião pública contra o movimento, muito em parte para proteger o candidato dos grandes veículos de comunicação. Destarte isso, há uma questão estrutural que dificulta a ação coletiva da categoria dos professores: fragmentação da categoria causada pelo individualismo cada vez mais exacerbado, praticamente inviabilizando-a enquanto categoria social e política (Evidentemente que esse aspecto se espraia pelo todo do corpo social, sendo raro movimentos coletivos de largo alcance).

Assim, reitero, apesar da justeza das reivindicações, não podemos afirmar o sucesso dessa jornada de luta do professorado. É algo a conferir. E, claro, se quisermos uma educação melhor para nossas crianças e jovens, ser solidário com os professores neste momento é investir nessa melhora.

(*) Ricardo Maciel é professor da rede pública e estudante de mestrado na USP

(**) Nota publicada originalmente na revista eletrônica Carta Maior.

*** Existe um embate entre oposição e Apeoesp que está presente no conteúdo desta greve, bem como questões partidárias, mas para o grosso do professorado o que se pede é urgente, justo e necessário. Por isso os 10mil professores presentes à assembléia votaram por entrar em greve, visto que sua motivação passa ao largo dessas questões, e estão fundamentadas na precariedade do ensino em São Paulo.

PS.: O cenário da educação em São Paulo merece uma análise mais ampla, tratando com detalhe da situação prática. Precisa também de uma avaliação histórica que dê conta evidenciar problemas mais densos como a destruição do saber escolar na formação da cidadania, trocado por um currículo que privilegia o mundo do trabalho, o investimento da individualidade etc. De forma que pretendo voltar ao tema para tratar disso.

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