Gilberto Dimenstein

Dimenstein, não engane os jovens

Por Diego Navarro *

Em recente coluna na Folhaonline o jornalista Gilberto Dimenstein busca mais uma vez falar em nome da juventude brasileira. Em seu pequeno artigo intitulado “Candidatos, não enganem os jovens” (leia aqui) o tucano usa de uma retórica pró-juventude para, disfarçadamente, atacar a candidata petista à presidência, Dilma Roussef.

Não é preciso ser doutor em análise do discurso para averiguar o verdadeiro conteúdo do texto, que apesar do título genérico, supostamente dirigido a todos presidenciáveis, cita única e exclusivamente a candidata petista. Trata-se, portanto, de uma manobra retórica simples; onde o escritor se dirige a um falso e genérico interlocutor (no caso o termo “candidatos” citados no título) quando na verdade seu alvo é outro – os leitores da coluna, estes seus verdadeiros interlocutores, que o “especialista” em educação quer convencer sobre dado ponto de vista. Como nenhum outro presidenciável é citado e, consequentemente, nenhuma outra promessa é dada, a única que pode deixar de cumprir o que prometeu, ou nos termos do jornalista, é capaz de “enganar os jovens” é a ministra da casa civil Dilma Roussef.

Sim, na soma da conta se trata apenas de mais um joguete tucano em busca da desmoralização petista e como não é do meu interesse entrar no mérito da guerra pela presidência, o texto não irá se ater a isso. Mas há algo implícito na coluna de Gilberto Dimenstein que é bem mais preocupante:  sua postura paternalista quanto à juventude!

Não é de hoje que o jornalista adota essa postura. Tanto na versão eletrônica quanto na impressa do tablóide Folha de São Paulo ele procura tecer comentários sobre o sistema de ensino e apontar medidas a serem adotadas pelo poder público. Enquanto comentarista da rádio CBN, Dimenstein tem uma coluna diária dedicada aos mesmos fins, bem como a promoção de ONGs envolvidas com jovens carentes.Vale lembrar que ele próprio é criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. No entanto, qualquer leitor ou ouvinte minimamente atento pode perceber o verdadeiro caráter dessa militância do jornalista. Nesses espaços de fachada procura promover idéias, atividades e ONGs tucanas (veja exemplos aqui , aqui e aqui ), atacar praticamente todo programa do governo federal ou MEC (mais exemplos aqui , aqui, aqui e aqui) e, principalmente, consolidar entre a a elite e a classe média  paulistas o ideário neoliberal de educação, implementado a quase duas décadas pelos governadores tucanos.

Vale citar alguns exemplos.

Durante as últimas greves na Universidade de São Paulo o jornalista dedicou enorme esforço em desmoralizar o Movimento Estudantil, dizendo que este não luta pelo direito à educação, mas tão somente em causa própria; na última greve de professores do Estado de São Paulo, o jornalista procurava deslegitimar o movimento grevista e “aconselhar” os professores prudentes a não aderirem a greve.Esse mesmo Gilberto Dimenstein apoiou o ataque tucano do governo de São Paulo ao plano de carreira do professorado paulista (comentamos o caso aqui), e já há muito tempo diz orgulhosamente que vem conversando pessoalmente com Gilberto Kassab e José Serra (que considera amigos pessoais) sobre uma reforma educacional tal como a de Nova York (de onde se origina a cartilha neoliberal que está sendo implementada em nossas redes de ensino).

Posto isso, fica clara a indignação causada por sua última coluna, quando o jornalista afirma: “O jovem tem, basicamente, três sonhos: 1) emprego, 2) habitação e 3) estudo.”

Ao fazer afirmações tão categóricas, Dimenstein adota um lugar de discurso perigoso: o porta voz da juventude, o representante de todos aqueles que, hoje, não possuem espaço para se expressarem. O Pai de todos! Qual a legitimidade dessa posição? Fala enquanto coordenador de ONG? Jornalista? Militante da educação?Pois,  nenhuma dessas posições legitimam o tom pastoral.Se considerarmos que a ONG por ele criada tem um alcance pífio no cenário educacional brasileiro, que suas colunas são lidas apenas por uma parca elite paulistana e que sua militância se resume a repetição da cartilha neoliberal, o que sobra?

Caro Dimenstein, nossa juventude não quer só emprego, habitação e estudo (e  falo não em nome de, mas enquanto juventude). Nós queremos mais do que esses empregos cedidos por ONGs e por programas como “Jovem Aprendiz”, que usam de estagiários como mão de obra barata para grandes empresas.

Nós queremos moradias dignas que não sejam invadidas pelas águas de verão, e tomadas pela lama do Tietê, nós não nos contentamos com estudo que aliena nosso espírito e disciplina nossos corpos. Nós lutamos por uma EDUCAÇÃO que liberta das garras de pessoas como você.

E nós queremos mais, nós queremos acesso à arte, não àquela enfadonha, “museificada” e tão alardeada por você. A arte do lirismo louco. A arte que invade os muros da cidade (e que nosso prefeito insiste em categorizar como vandalismo).

Não nos contetamos com nossas moradias, mas queremos ocupar cada canto da cidade, até mesmo àqueles historicamente negados a nós (USP, Paulista, Jardins).

Não meu caro, a juventude deste estado, deste país, uma vez dotada de olhar crítico certamente não vai se contentar  com as necessidades básicas a que você quer restringi-la ( se é que quer mesmo!). Não lhe foi dada procuração para falar em nome de quem quer que seja. Mais do que pão e circo, nós, jovens, aspiramos pelo direito à voz própria, para inscrever no mundo o que de fato é nosso desejo. Assim, sua enfadonha e demagógica voz, regiamente paga, não se apropriará de nosso direito à expressão, tampouco esvaziará nossa vontade de lutar: lutar para viver e não apenas sobreviver.

(*) Diego Navarro tem 22 anos e é estudante.

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