Toma posse hoje o novo reitor da USP, João Grandino Rodas, em cerimônia fora da Universidade, na sala São Paulo, no centro da cidade. A cerimônia se faz fora não por acaso, como não foi por acaso a eleição também ter ocorrido da mesma forma: não houve legitimidade na escolha, por consequência não é legítimo o novo reitor. Assim, manifestações que evidenciam crise e que algo de errado e podre vai pelo reino da USP, são evitadas pela distância e outros métodos típicos de quem governa para poucos. O pedaço roto da roupa deve ficar oculto.

Não bastasse o processo centralizado e autocrático da estrutura de poder da USP (nunca é demais voltar a dizer que é a universidade pública mais antidemocrática do país), Rodas sequer é escolha da burocracia uspiana, foi o segundo de uma lista de três. Devido a mais um dispositivo que sinaliza a inexistência de autonomia da Universidade, João Grandino deve sua escolha principalmente ao governador de São Paulo. Este, autoritário que é, deu uma banana para a tradição de ratificar o primeiro colocado. Revivendo os anos de chumbo e, tal qual Paulo Maluf, optou por um aliado.

Nos últimos anos a burocracia da USP tem escolhido para reitor figuras até então obscuras, cheias de títulos, mas de trabalho intelectual desconhecido e abaixo da média. A mediocridade só pode eleger o que lhe é semelhante (e aqui falamos da alta burocracia uspíana e não de uma boa parte de intelectuais que merecem o título e construíram carreira acadêmica respeitável, graças a eles e muitos dos estudantes e funcionários que vivem a universidade como universidade,  a USP ainda ostenta o título de melhor universidade do Brasil). Melphi e depois Sueli estavam neste figurino, como Rodas agora está. E ainda falam em mérito!

O reitor eleito (clique aqui e leia o artigo “João Grandino Rodas: da toga à farda”) antes de sê-lo era figura desconhecida, de pouca expressão no meio acadêmico. Chegou a diretor da Faculdade de Direito pelas mãos de Celso Lafer. Permaneceria na obscuridade não fosse  colocar a Polícia dentro da FD, rompendo acordo feito com estudantes e reprimindo a ocupação da São Francisco por movimentos sociais. Certamente isso lhe rendeu visibilidade e apoios da direita. Mais tarde promoveu e abriu caminho para a norma que permitiu à USP chamar a Polícia sempre que quisesse. Em julho de 2009 a Universidade foi militarmente ocupada (o termo parece exagerado, mas de fato foi isso que ocorreu). Assim, Rodas tomou para si o símbolo que tanta sensibiliza a elite paulistana e parte da classe média: o homem que não permite o mundo sair dos trilhos, que garante a ordem e promove o progresso. Como se a desordem não estivesse nos desvios do ethos universitário, e o progresso não fosse tão somente a reprodução do capital. Com isso, mais conchavos, troca de favores e uma eleição restrita a menos de 1% da comunidade universitária, Rodas é reitor eleito, tomando posse hoje.

Antes de assumir o cargo, o novo reitor procura mostrar que veio para mudar. Simbolicamente transferiu a reitoria para o prédio da antiga reitoria. Em entrevistas dá a entender que mudará a estrutura de poder da Universidade, tornando-a mais democrática. É possível acreditar nisso tendo em vista sua escolha viciada e seu passado autoritário? Qualquer que fosse o reitor eleito teria que armar sua gestão com esse discurso. As eleições de 2009 mostraram a profunda crise vivida pela USP face à obscena estrutura de poder. Não foi mero detalhe todos os reitoráveis tocarem no tema. Por que mudar algo que lhes beneficia, exceto se estiver ameaçado? Por tudo que vimos no decurso da história e da própria USP, mudanças virão, no entanto serão cosméticas, apenas para dar verniz democrático, quando na prática é o inverso. Dito noutras palavras e usando um velho clichê: mudar tudo para não mudar nada.

Ouve-se aqui e ali que 2010 será um ano tumultuado na USP, que medidas conservadoras de Rodas promoverão o inevitável embate entre as forças da Universidade. É provável e até mesmo certo que isso ocorra. No entanto, também é provável que em 2010 Rodas fará pequenas concessões para evitar que qualquer acontecimento ganhe as páginas dos jornais. Evidentemente José Serra não o escolheu por ser o melhor para a Universidade e sim porque Rodas é um aliado, e dentre outras coisas deve assegurar que Serra não ouvirá falar em USP em ano eleitoral. De forma que talvez deva-se aguardar 2011 intenções e atitudes mais explícitas do que realmente Rodas e seu grupo de interesses farão na e da USP. Outro fato que não pode ser desprezado é que Rodas tem ambições políticas maiores. É comum quem salta da mediocridade para os holofotes pensar-se maior do que de fato é.

Também ouve-se aqui e ali que a eleição de Rodas servirá para aglutinar forças dispersas que seriam contraponto ao rumo tomado pela Universidade nos últimos anos. É duvidoso que isso aconteça face a um traço nefasto da USP e da maioria das universidades: a força da cooptação que se dá dos níveis mais baixos aos mais elevados; indo da tolerância com os desvios praticados por quase todos até a troca de favores nos quadros mais altos. Ou seja, viagens, olhos fechados para a falta de virtude e dignidade para com um cargo público, verbas para pesquisas (muitas delas sem a menor relevância), nomeações etc., tem sido o caldo que garante o silêncio, e mesmo quando não há silêncio falar é permitido, uma vez que o espaço está programado e controlado. E isso nos falta: não deixar a efetividade num patamar mais baixo que o pensar, deixar a todo instante a história se naturalizar.

Melphi e Sueli construíram um feudo. Rodas montará outro acomodando parte desse. Nessa história não entra a comunidade uspiana muito menos o povo, eles não cabem num projeto de reprodução da desigualdade sócio-econômica. Enfim, sessão solene da posse de Rodas é um solene dizer invertido de que não há o que comemorar.

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