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No dia 04/08/2009 a Folha online anunciou a mais nova mudança do vestibular para ingresso na USP em 2010: o acréscimo de questões dissertativas de inglês. O anuncio aconteceu simultaneamente ao lançamento do manual do candidato, menos de 4 meses antes da prova. Não está claro se as respostas deverão ser elaboradas em português ou em inglês, o que se configura uma surpresa para os candidatos. A prova de inglês do vestibular não vinha sofrendo muitas mudanças até esse ano. Inglês aparecia apenas nas questões objetivas e somava 5 questões ao todo.

O primeiro problema desta mudança é a falta de respeito com os estudantes que irão fazer a prova para 2010. Analisar um texto em inglês e responder questões dissertativas requer um conhecimento mais específico da língua, habilidade adquirida ao longo do tempo. Não que estudar para responder questões objetivas não inclua análise de texto, mas quando os estudantes têm a referência das alternativas, organiza seus estudos também de modo a atender esta demanda específica. Elaborar uma resposta dissertativa exige conhecimento mais detalhado da estrutura do texto em inglês, o que este ano será muito difícil de conseguir levando em consideração o tempo que estes estudantes têm para se preparar a partir de agora (menos de 4 meses), sem contar a necessidade de se dedicar às outras matérias que também terão provas dissertativas na segunda fase.

No manual do candidato está definido que o candidato não poderá tirar zero em nenhuma das  matérias da segunda fase, sendo este um pressuposto eliminatório. Ora, se a instituição se posiciona preocupada com alunos de escolas públicas e o acesso à universidade pública, se propõem uma política de inclusão através dos auxílios como o INCLUSP e o PASUSP, por que coloca como condição de ingresso não zerar nenhuma questão nas provas dissertativas? Entendemos que este seja um critério coerente e que a qualidade das provas está em ascensão, seria uma maneira adequada de selecionar candidatos realmente preparados para enfrentar a carga de conteúdo exigido na academia não fosse o fator elitista de seleção.

Seguindo a carga horária definida pelo MEC, Inglês conta com 50 minutos de aulas semanais. As escolas públicas não têm outra alternativa senão seguir esta que está dada. Na maioria das vezes, é impossível ir além da grade por falta de estrutura da escola para elaborar aulas extra curriculares, por falta de professores capacitados para isso ou porque muitos dos alunos trabalham. No caso das pequenas escolas particulares, algumas até conseguem estender um pouco a carga horária e realizar algumas atividades extras para aprimorar o ensino da língua, sem contar que muitos alunos fazem cursos de inglês fora da escola. Ao lado destas, só no estado de São Paulo (veja a lista em: http://educacaobilingue.blogspot.com/2008/06/escolas-bilnges-em-so-paulo.html), existem cerca de 45 escolas bilíngües (inglês – português), escolas que abordam todo o currículo exigido pelo MEC, porém em inglês. Mesmo sendo obrigadas a cumprir uma carga horária também em português, essas crianças e adolescentes estão trabalhando a língua inglesa por volta de 15 horas semanais. Cerca de 5% dos estudantes formados em escolas bilíngües irão para o exterior continuar seus estudos após concluírem o segundo grau, o resto estará competindo com nossos estudantes de escolas públicas que estão assistindo aqueles 50 minutos de aulas de inglês semanalmente. Temos ainda as grandes escolas particulares – formadores de lideranças como eles mesmos se autodenominam – essas escolas contam com atividades extras de inglês e parcerias com as maiores escolas de inglês de São Paulo, como Cultura Inglesa e Alumini. Essas crianças e adolescentes estudam aproximadamente 12 anos nos melhores cursos de inglês do Brasil para competir com nossos alunos de escolas públicas que estudaram os já citados 50 minutos de inglês por semana.

Sendo estas as condições de formação dos candidatos, se as questões dissertativas são eliminatórias, se ao zerar qualquer uma das matérias da segunda fase o candidato é eliminado automaticamente, de que adiantam todas essas políticas de facilitação do acesso e de inclusão? Para que um programa de inclusão se essa prova é eliminatória? Nem no manual do candidato, nem nos projetos de inclusão, está descrito que se o candidato vindo de escola pública não for bem sucedido na segunda fase ele continua tendo chance de passar. E a elaboração das provas? Se agora a FUVEST tem a cara de pau de dar essa informação menos de quatro meses antes do vestibular, como será o avanço do grau de dificuldade dessa prova? Considerando que alunos das grandes escolas particulares e das escolas bilíngües farão a prova com facilidade e se a intenção é elaborar uma prova que exija mais raciocínio, isso significa que se as notas forem altas o nível de dificuldade das provas aumentará, facilitando, portanto, a eliminação dos candidatos menos preparados.

Sabemos como se corrigem as provas e um dos critérios é a comparação das respostas para definir parâmetros. Como definir parâmetros de candidatos com tamanha disparidade? Afinal, que universidade é essa que cada vez mais limita o acesso, distorcendo o seu caráter público e colaborando para um cenário de crescente desigualdade?

Esperemos os resultados, mas não esperemos muito para não vermos essa nossa universidade pública deixar de ser pública devido ao perfil de potenciais pagantes dos estudantes que conquistam as vagas através deste, cada vez mais injusto, sistema de processo seletivo.

Por Universidade para quem?

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