Armando Corbani, um dos candidatos a reitor e pessoa de confiança da inábil Suely Vilela, concedeu entrevista ao Estadão (09/08). Nela fica nítido a proposta de continuidade com a atual gestão. Na verdade, fica claro que qualquer dos cinco candidatos não promoverá alterações significativas.

Com este sistema de eleição e de poder nunca ocorrerão modificações, ou seja, qualquer que venha a ser no novo reitor, a USP continuará sendo privatizada por dentro, continuará sendo antidemocrática (clique aqui, aqui e aqui para ler mais sobre o caráter antidemocrático da USP), ignorando a maioria de sua comunidade, autocrática e cada vez mais usando modelos empresariais de gestão (clique aqui para ler mais sobre este modelo de universidade).

Sendo assim, participar do atual processo eleitoral é legitimar o que, na prática, é ilegítimo (clique aqui e leia mais sobre a ilegitimidade uspiana), tão ilegítimo que ultimamente precisa recorrer à força para passar suas deliberações. Aliás, o senhor Corbani concordou com a invasão da USP pela PM.

Abaixo íntegra da entrevista do senhor Corbani.

‘Não existe cisão entre uma gestão e outra’

Armando Corbani, pró-reitor da USP, quer limitar programa de inclusão a estudantes de baixa renda

Renata Cafardo – O Estado de S. Paulo

O físico Armando Corbani trabalha há quase uma década ao lado da atual reitora da Universidade de São Paulo (USP), Suely Vilela. Era o segundo na hierarquia da pró-reitoria de Pós-Graduação quando Suely ocupava a chefia da área, na gestão passada. Ajudou na campanha que a elegeu em 2006 e ficou então no seu lugar na mesma pró-reitoria, onde está até hoje.

Candidato nessas eleições a substituir mais uma vez a colega, Corbani acredita que o cenário futuro da USP não deve ser de muitas mudanças. “Não se coloca um castelo no chão e se constrói outro. Você faz melhorias de maneira geral em setores que acha que estão mais comprometidos. Não há como ser fortemente a favor de uma direção ou fortemente contrário a outra.”

Corbani classifica como “boa” a gestão de Suely, principalmente pelo programas de inclusão, que considera “um avanço”. Uma de suas propostas prevê que seja acrescentado o critério de renda ao programa, para que só estudantes pobres recebam pontos a mais na Fuvest. Hoje, é necessário apenas ser aluno de escola pública para conseguir o benefício.

Corbani, de 62 anos, recebeu o Estado com respostas prontas escritas em folhas sulfites sobre temas que provavelmente surgiriam na entrevista abaixo, caso da adesão da USP ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como parte do vestibular. “Um bom cientista tem que preparar o seu laboratório.”

O senhor é um dos dois candidatos que participa diretamente da gestão de Suely Vilela (o outro é o pró-reitor de Cultura, Ruy Altafim). Ela declarou apoio ao senhor?

Isso só perguntando para ela. Todos os candidatos participaram de alguma forma da gestão da reitora, direta ou indiretamente. É muito difícil para a reitora externar uma preferência muito explícita.

O que, na sua opinião, significa o fato de haver muitos candidatos ligados à atual gestão?

Não existe grande cisão na universidade entre uma gestão e outra. Não se coloca um castelo no chão e se constroi outro. Você faz melhorias de maneira geral em setores que você acha que estão mais comprometidos. Não há como ser fortemente a favor de uma direção ou fortemente contrário a outra. Estamos todos unidos numa mesma ideia: melhorar a universidade.

Como analisa a gestão da reitora?

Acho que tem sido uma gestão boa, houve alguns avanços. Como o Inclusp, era um programa que havia sido pensado, mas faltava a decisão política de ser implantado e ela tomou. O programa de permanência estudantil foi ampliado. A visibilidade internacional caminhou mais. Do ponto de vista administrativo, se começa a trabalhar a descentralização e a desburocratização do sistema. Isso é avanço.

E as greves e as posições tomadas por ela sobre a presença da polícia no câmpus?

É uma questão delicada falar de uma tomada de decisão. Tenho como ideia fundamental que o dialogo é prioritário em qualquer relação. Todo diálogo é preferível a uma situação de violência. Mas houve uma forçada de tentativa de violência aqui dentro da reitoria, uma pressão para invadir. Aí tem que tomar as medidas cabíveis e tínhamos um preceito legal votado no Conselho Universitário. Foi uma medida possível de ser tomada. Eu concordei.

Os pró-reitores foram consultados?

É uma decisão de gabinete.

O senhor opinou a respeito?

Não.

Há anos o senhor trabalha com a reitora. Há quem diga que ela é centralizadora.

Talvez devêssemos esclarecer um pouco como as pró-reitorias interagem com a reitoria. Nós somos os braços acadêmicos da universidade. A parte administrativa cabe à reitoria. Nossas relações são acadêmicas. Uma vez ou outra acontece de sermos convocados para uma reunião para trocar ideias sobre procedimentos que estejam em curso. Essa relação não é tão direta como se imagina. A universidade é complexa. Eu tenho uma pró-reitoria que é praticamente uma universidade dentro da universidade. Todos os docentes estão envolvidos, 22 mil alunos. Então, de forma geral, as reuniões são mais técnicas. Agora, se ela centraliza algumas decisões, é porque talvez ela entenda que deva ser dessa maneira. Há pessoas que são consultadas, ninguém toma decisão dessa natureza (a entrada da polícia no câmpus) por vaidade ou sozinho.

Qual sua opinião sobre o processo eleitoral?

Eu sou contra a eleição paritária, voto direto na universidade não é adequado. A carreira universitária é baseada no mérito, isso é o eixo fundamental da universidade. E isso não combina muito com a ideia de voto universal. Já há uma discussão sobre regras de eleição. O que está se vislumbrando é que se deva ampliar as representações de todas as categorias. Tem que ser acoplado a isso a eleição de diretores das unidades. O consenso é que o sistema deve ser um pouco mais aberto, não saberemos exatamente qual deve ser. Eu acho que isso deveria ser o ponto inicial da nova gestão, para que tivesse um tempo razoável. Isso deve envolver mudanças no estatuto que contemple a chamada mais democratização na universidade. É um tema que tem que vir a tona de imediato.

O senhor acha que a USP deveria aderir ao Enem como parte de seu vestibular?

A Fuvest já contempla o Enem, em parte dando bônus. As estaduais paulistas já estão promovendo convergência dos vestibulares e começam a discutir a possibilidade de consolidação. O vestibular deve ser de tal forma que combine conteúdo e habilidades. O Enem está estabelecido como um programa para as universidades federais, neste momento. Mas acho que deve se vislumbrar algo mais prático no futuro. Tem que caminhar para que se faça a avaliação dos candidados a partir do aproveitamento no ensino médio e montar um modelo para isso. Não apenas serem avaliados por uma prova no fim do terceiro ano.

Mas como fazer isso, se as escolas tem avaliações diferenciadas de seus alunos?

Eu falei em futuro. Não precisa ser próximo. Para isso precisa haver um balizamento maior das escolas nacionais. Não seria um problema de gestão agora. Eu acho que um primeiro passo seria mais adequado uma avaliação conjunta das universidades do Estado. As três universidades estaduais paulistas já tem uma tradição muito grande de fazer exames, e em grande escala, coisa que nenhuma universidade federal tem.

E o Enade, a USP deve participar?

A avaliação dos cursos de graduação tem que ser feita de forma continuada interna e externamente. O engajamento ao Enade já está em discussão e sou favorável. Colocaria bastante esforços para que já no próximo participássemos.

Como o senhor avalia o programa de inclusão da USP?

O Inclusp começa a mostrar algum resultado. Os estudantes que foram beneficiados pelo programa apresentam os mesmos índices acadêmicos que o restante. Um avanço nesse programa seria combinar a valorização da escola pública com critérios de renda. Aí nós estaríamos falando em mais justiça social. Acoplado a isso, temos o programa de permanência estudantil, que deve ser ampliado. A universidade não deve poupar esforços para manter os alunos nos seus cursos. Não seria razoável para um aluno que passou em um processo seletivo como a Fuvest e a universidade não apoiar o aluno.

Como analisa o movimento estudantil na USP hoje?

Eu entrei na universidade quando o movimento estudantil tinha uma bandeira, mas eu nunca fiz parte. Todos nós tínhamos uma consciência sobre o assunto, independente de você estar participando ativimente ou não. Todo o ambiente permeava a situação que a ditadura nos impôs. As bandeiras efetivas atuais são muito difíceis de reconhecer. Uma das coisas que acho que não é saudável é ter um partidarismo muito severo. Na universidade você pode ter adeptos de partidos políticos, mas não é o ambiente de fazer partidarismo. É ambiente de fazer política, não partidarizar. Com isso, o próprio movimento já fica fragmentado.

Na última greve, houve polêmica sobre o participação da USP no programa de formação de professores a distância da Univesp, do governo estadual. Qual é sua opinião sobre a educação a distância?

A gente tem que usar a tecnologia de informação disponível em todas as áreas, para aprimoramento do sistema educacional e administrativo. Isso não significa que você vai substituir a aula presencial. Um curso a distancia deve ser, no momento, um excelente laboratório de experimentação para metodologias inovadores e práticas educacionais que venham a complementar o ensino tradicional. Tem que pensar como uma nova metodologia científica: você aplica, funciona bem, você passa a usá-la. Esse curso de Licenciatura em Ciências é um piloto. É válido, sim. Não podemos nos furtar de uma tecnologia que está sendo usada no mundo inteiro, boas escolas usam. A questão com o governo está sendo equacionada. O ensino a distância começou a ser pensado por volta de 2002, 2003 no Conselho de Graduação, cinco anos antes da Univesp. Essa discussão vem evoluindo, agora com o advento da Univesp apareceu a possibilidade de se ter recursos de se implantar esse curso com dinheiro externo. Mas o convênio não evoluiu a contento. O curso tem que ser da universidade. A propriedade intelecutal do curso é da universidade. A USP hoje está certa em não assinar.

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