Gilberto Dimenstein

Gilberto Dimenstein

Na última segunda feira, 03/08, o jornalista Gilberto Dimenstein publicou em sua coluna, na Folha de São Paulo, artigo congratulando o governador José Serra por sua mais nova iniciativa na área da educação, que segundo o jornalista, resumiria-se a um aumento salarial de 25% para professores competentes.

O propósito desse nosso texto é demonstrar que o repórter da Folha escreveu um artigo falacioso e permeado de inconsistências, bem como elencar os malefícios que estão contidos no projeto tucano para a educação pública; projeto que é mais uma jogada de marketing visando 2010.

Gilberto Dimenstein inicia o texto dizendo que o governador irá lançar o tal projeto, que poderá aumentar para sete mil reais o salário de um professor da rede, e completa que o aumento estaria condicionado a avaliações a serem feitas pela Secretaria de Educação, assim como controle de faltas, e permanência de pelo menos 3 anos na mesma escola.

Façamos nossa primeira observação.O que o jornalista não cita, é que a proposta chega de surpresa para todos os servidores públicos da educação.Até o momento nada havia sido conversado ou mesmo sondado a professores e diretores. Não é a primeira vez que essa gestão tucana tenta de forma brusca e inesperada impor mudanças à educação, sem antes consultar os interessados. Como exemplo desta arbitrariedade, lembramos os decretos que geraram a greve e ocupação da USP em 2007 e os PLs 19 e 20 que culminaram na greve dos professores estaduais neste ano. Iniciativas sem consulta a quem quer que seja.

Face a isso, é comum greves e manifestações contrárias vindas dos setores envolvidos ou da sociedade paulista. Tais revoltas não se dão por um puro anti-serrismo, ou nojo a longeva gestão tucana em São Paulo – ainda que esta mereça, por tudo o que tem e não tem feito –, mas sim porque educação pública é uma questão que interessa a toda sociedade. Não dá para efetuar mudanças drásticas sem antes consultar os principais envolvidos, que nesse caso é toda sociedade paulista e não apenas especialistas em educação, no entanto, nem estes foram ouvidos, ainda que muitos conduzam estudos e mais estudos sobre o tema, pessoas que têm contribuições fundamentais para a melhoria do ensino. Mas Serra insiste em operar mudanças de cima para baixo, mesmo num assunto grave como este, pois irá mudar o plano de carreira de servidores públicos que já têm um contrato assinado com Estado.

Juridicamente falando, como Serra pretende simplesmente mudar o processo? E nem falemos em democracia…

Para vender melhor o plano, tanto governo como o colunista, coloca em questão, um lugar comum que dá nojo (isto mesmo leitor, nojo, o termo apesar de pesado, é o único apropriado para o que estamos discutindo). Professor público é mal preparado (e por isso precisará ser avaliado), falta muito (e por isso terá a presença policiada) e não para em nenhuma escola (e, portanto, terá de permanecer na escola). Faz algum tempo que a estratégia adotada é colocar a culpa da péssima qualidade do ensino público paulista na conta dos professores; pouco importa se o governo permite salas super lotadas, usa a progressão continuada apenas para atender estatísticas positivas de aprovação e evasão escolar, não ouve os que professores têm a dizer sobre o ensino, desrespeita o funcionalismo público e o trata como caso se segurança pública, além de remunerá-lo por meio de um dos menores salários do Brasil, ainda que São Paulo seja o maior orçamento da Federação. Enfim, o governo não é responsável por nada, os professores sim.

Vejamos, que há um sério déficit de qualificação na educação básica é fato.Muito porque esses professores recebem pouquíssimo, e não cristão no mundo que consiga permanecer num emprego que paga $ 7,90 por hora.Obviamente, a maioria dos profissionais bem qualificados acaba migrando para o ensino privado. Mas esse é só parte do problema, pois a rede pública é composta também por muitos Quixotes, que insistem em se manter por questões ideológicas. Por que o governo do estado não planeja oficinas de reciclagem? Por que não investe na especialização desses profissionais? O que se tem visto até hoje são projetos de EaD que não suprem o déficit existente, e que não são acompanhadas de políticas de incentivo ao profissional.Por fim, há de se perguntar, se esses profissionais que passaram em concurso público não estão bem preparados? Não foi o governo que elaborou os concursos? E não é a gestão tucana que já está aí há 16 anos?Perguntas, perguntas…

“Mas professores faltam demais”, bradam uns.Sim, talvez seja a categoria com maior número de faltas.Também é a maior categoria de servidores com acúmulo de cargos, isso porque os sete reais e noventa centavos não pagam as dívidas e para conseguir um salário decente é preciso trabalhar, na maior parte dos casos, por até 12 horas. Professor público também é o servidor mais afastado por problemas psicológicos, sendo a maior taxa de suicídios (ultrapassando policiais, que historicamente eram os primeiros nesse ranking). Mas esses dados não são publicados, para não causar “tumulto público” .E as manchetes continuam a colocar a culpa do ensino nos professores.

Sobre a cobrança de permanência na mesma escola, quase não há o que dizer.Será que um cidadão que trabalha a uma distância razoável do lugar onde mora, vai ficar mudando, por esporte, de local de trabalho? O fato é que a burocracia governamental dificulta e muito a escolha de escolas, o que acaba fazendo com que um professor que mora em São Matheus (Zona Leste) tenha que trabalhar no Grajaú (Zonal Sul), e o morador do Grajaú viaje até São Caetano do Sul todo dia para dar sua aula.

E os tais testes? Quem sabe como serão? Se for seguir o modelo demo-tucano que tentam implementar há tempos em Prefeitura e Estado, não será nada bom.Por exemplo, o Saresp que serve para avaliar as escolas estaduais, faz tempo vem sendo questionado por especialistas. Segundo eles, a prova faz tudo, menos avaliar alguém. A prova cidade, implementada na rede municipal na gestão tucana, é motivo de riso e ira entre professores, que são forçados a aplicá-la para alunos da 1º e 2º série primárias.Uma prova com mais de 30 páginas, para crianças que ainda estão se adaptando ao ambiente escolar.

E mais uma vez, esses professores já não foram avaliados para entrar no sistema? Por que não procurar melhorias reais no cotidiano desses professores?A maioria deles tem que dar aula para 40 alunos em salas-prisões que vão contra qualquer ideal pedagógico moderno. E pior, hoje esses profissionais são obrigados a seguir o currículo estadual, o que não seria grande problema se esse suposto currículo não se resumisse a cartilhas e planos de aula extremamente estreitos em conteúdo. É o fim da autonomia do professor em da sala de aula. E pior, essas cartilhas são reconhecidamente péssimas, vide o caso da matéria de geografia, que suprimia países.

E o tal aumento? O próprio Dimenstein, de maneira risível admite que só será alcançado em 12 anos.Ou seja, se o professor conseguir seguir o plano de Serra, receberá $7.000 em 2021. Diga-se de passagem, até lá esse valor poderá representar nada.Além de extremante subjetivo, esse aumento pode implicar num fim do aumento real.Afinal, é prática tucana nunca ceder aumentos significativos e ampliar a política de bonificação, para que não tenha que posteriormente continuar arcando com os trabalhadores. Sendo assim, dos poucos que conseguirem chegar em 12 anos ao patamar de sete mil reais, a depender da política tucana de não conceder ganhos reais ao funcionalismo público, sete mil reais representará muito pouco tem termos de poder aquisitivo. Outrossim, certamente esta forma de aumento salarial servirá de pretexto para não dar aumentos reais para toda a categoria.

Voltemos ao especialista em educação da Folha – jornal e jornalista entusiastas da candidatura Serra para a Presidência da República. Dimenstein diz que, educação pública é tida como a área mais vulnerável das gestões tucanas. Realmente, em 16 anos de PSDB talvez seja certo afirmar que as maiores greves e conturbações tenham sido nessa área, começando pelo ovaço recebido por Mario Covas em um ato de professores estaduais até a recente ocupação da reitoria da USP (única greve na gestão tucana que conseguiu acabar com vitórias reais). Somos o calcanhar de Aquiles dos pupilos de FHC, e se continuar desse jeito, continuaremos sendo por um longo tempo.

Com tudo isso, não queremos dizer que não há maus professores, assim como nem todo jornalista é venal. Sim, há. E muito é preciso ser feito para afastar os que agem a contrapelo do ethos que norteia um educador, bem como recuperar os que querem trabalhar com dignidade e virtude, mas que apresentam deficiências profissionais. No entanto, isso não é dirimido numa canetada. É preciso uma discussão ampla, que leve em consideração o que tem a dizer o professorado, a sociedade e o governo. Se o problema da educação pudesse ser resolvido por decreto, há muito tempo São Paulo teria o melhor sistema de ensino do País, visto que o tucanato e, principalmente, José Serra governam o estado há dezesseis anos através de decretos.

Por Universidade para quem?

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