A briga está armada. Pressionado por movimentos populares, o Partido dos Trabalhadores tem realizado esforços para conseguir aprovar cotas sociais nas universidades federais de todo país. Por sua vez, a bancada demo-tucana tenta impedir que as universidades públicas que já adotaram o sistema continuem usando tal critério para seleção de alunos. Isso porque os companheiros de Serra e FHC preveem que a batalha em Brasília para abortar o projeto será difícil, podendo os petistas usar essa questão para manchar a imagem do PSDB em pleno ano eleitoral.

Uma disputa, em particular, se dá na Universidade de Brasília, onde Democratas entraram com ação no Supremo Tribunal Federal – trono do conservadorismo udenista e de seu mais novo baluarte, Gilmar Mendes – para vencer a pendenga em outra instância e manter longe da opinião pública o debate.

No entanto, a Procuradoria Geral da República não é o STF, tampouco os procuradores gerais em tempos pós-FHC são “engavetadores”, de maneira que a PRG pronunciou-se a favor da decisão da UnB em manter os cotistas. Ou seja, a batalha está só começando…

E São Paulo?

Não à toa, em terra dominada há quase 20 anos pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, o debate sobre Cotas encontra grandes entraves. Na USP, onde um núcleo duro “psdebista” fortemente centralizado na figura de Eunice Durhan, publica número grande de artigos contra cotas, é quase um pecado falar sobre o sistema. De fato, dentro da Universidade de São Paulo, a ala mais “progressista” do Conselho Universitário teve que brigar pela aprovação do INCLUSP, medida praticamente inócua, que merece uma avaliação a parte, a qual será feita posteriormente.

Se em Brasília um intenso debate político se iniciou depois da decisão da UnB, e no sul do país a situação chegou ao extremo de ter grupos nazi-fascistas ameaçando estudantes cotistas, em São Paulo o que impera é um “deixa disso”, um abafamento (pra não dizer sufocação) dos fatos por parte do governo e da “grande” imprensa, e certa apatia daqueles que poderiam dizer e fazer algo.

Sim, dentro da USP, mesmo entre a dita esquerda,cotas é um assunto delicado.A ADUSP (Associação de Docentes da USP) apesar de ter publicado uma revista sobre o tema, diz que não tem acúmulo e consenso suficiente sobre o assunto. No seio do movimento estudantil também há quem reprove políticas de ação afirmativa.

Enquanto um lado diz que a política de cotas só viria a reforçar atitudes racistas, e que no Brasil conceituar raças é extremamente complicado, o outro afirma categoricamente que ações afirmativas são puramente reformistas, e que nossa luta deve ser por acesso universal ao ensino superior público. Se o primeiro esquece completamente que vivemos num país de forte tradição escravista e reproduz os frágeis argumentos de Ali Kamel como um tipo de verdade que só brancos racistas poderiam levar a sério, o segundo grupo parece esquecer que o almejado acesso universal só se dará após uma revolução social, e que até lá tem muita gente que poderia fazer bom uso da universidade pública, inclusive para enriquecer nossa cultura política.

Em um momento onde a palavra chave dentro da Universidade é democracia, deixar de lado essa discussão é quase esquizofrênico (pra não dizer cínico).Afinal, para quem e de quem é essa universidade?

Nas próximas semanas tentaremos abordar este assunto espinhoso, em seus mais diversos níveis.

Anúncios