Poema3

Por que esta falta de interesse dos estudantes por questões do coletivo?

Este artigo não pretende decifrar tal enigma, mas levantar questões acerca de dois importantes textos que refletem diferentes pontos de vista e diferentes projetos de universidade, tentando olhar para dentro de casa e ver o que temos feito, se nos aproximamos de alguma forma de algum desses textos. São eles “O manifesto de Córdoba” (1918) e “A declaração de Bolonha” (1998).

Em 1918, durante uma greve, um manifesto foi escrito por estudantes da Universidade de Córdoba. Cansados da então vigente estrutura de poder submetida ao ensino religioso, organizaram um movimento que teve como principal consequência a transformação de toda estrutura de ensino superior que mais tarde refletiu em diversas universidades latino-americanas. Até então, o curso de Direito, chamado “direito público eclesiástico”, estava atrelado ao direito canônico, nos cursos de filosofia se ensinava que “a vontade divina era a origem dos atos dos homens” e o juramento profissional era realizado sobre os Santos Evangélicos.

Esse manifesto fora escrito por quem estava nas salas de aula, sentindo a necessidade real de mudanças, estudantes que não se identificavam com o que estava sendo ensinado e, principalmente, por aqueles que não acreditavam naquela estrutura de poder constituída. Suas razões não eram interesse individual, mas interesse coletivo.  

A juventude universitária de Córdoba afirma que jamais fez questão de nomes nem de empregos. Levantou-se contra um regime administrativo, contra um método docente, contra um conceito de autoridade. As funções públicas se exercitavam em benefício de determinadas camarilhas. Não se reformavam nem planos nem regulamentos por medo de que alguém nas mudanças pudesse perder o emprego. O lema “hoje para você, amanhã para mim”, corria de boca em boca e assumia a validade de estatuto universitário. Os métodos docentes estavam viciados de um estrito dogmatismo, contribuindo em manter a universidade distante da ciência e das disciplinas modernas. As eleições, encerradas na repetição interminável de velos textos, amparavam o espírito de rotina e de submissão.  (Córdoba:1918)

Será que podemos comparar nossos companheiros estudantes com aqueles de Córdoba? Por que o quadro discente da USP hoje é tão submisso às mudanças impostas de cima para baixo, sem se colocar efetivamente? Por que a vontade de transformar, tão característica de diversas gerações de estudantes, se tornou a vontade de ingressar no mercado de trabalho, de adaptar-se ao que está dado? Será que temos estudantes como aqueles que se colocaram e que desencadearam um processo de reforma universitária por toda América Latina? Onde está a determinação de fazer do sistema de ensino algo que seja compatível com a realidade do país? Estamos então contentes com a presente situação? A transformação qualitativa das universidades latino-americanas, naquele contexto, teve como impulso os movimentos que desencadearam os processos de reforma das universidades a partir da Reforma Universitária de Córdoba, exigida pelos estudantes.

 

A juventude já não pede. Exige que se reconheça o direito de exteriorizar esse pensamento próprio nos corpos universitários por meio de seus representantes. Está cansada de suportar os tiranos. Se foi capaz de realizar uma revolução nas consciências, não pode desconhecer-se a capacidade de intervir no governo de sua própria casa. (Córdoba:1918)

Oitenta anos mais tarde, ao contrário, começamos a assistir a um projeto elaborado de cima para baixo. Com interesses econômicos e não pela qualidade na educação. Um projeto que está sendo cuidadosamente imposto. Um retrocesso na organização das relações de poder e da estrutura da universidade. O processo de Bolonha, iniciado pela declaração de Bolonha, está sendo negociado pelos administradores das instituições.

As instituições Européias de Ensino Superior, por seu lado, aceitaram o desafio e assumiram um papel preponderante na criação do Espaço Europeu do Ensino Superior, também à luz dos princípios fundamentais estabelecidos na Magna Charta Universitatum de Bologna, do ano de 1998. Isto é da máxima importância, dado que a independência e a autonomia das Universidades asseguram que o ensino superior e os sistemas de estudo, se adaptem às necessidades de mudança, às exigências da sociedade e aos avanços do conhecimento científico. (Bolonha:1998)

 

As exigências agora vêm de uma voz abstrata: exigências da sociedade. Nome mais convincente para não dizer mercado. Quem é a sociedade que exige menos participação? Afinal, quem é o sujeito do processo de aprendizagem? Onde está ele na elaboração desta reforma? Pelo visto, simplesmente foi ignorado. O discurso agora é em nome da instituição como força competitiva.

 

Teremos que fixar-nos no objetivo de aumentar a competitividade no Sistema Europeu do Ensino Superior. A vitalidade e a eficiência de qualquer civilização podem ser medidas através da atração que a sua cultura tem por outros países. Teremos que garantir que o Sistema Europeu do Ensino Superior adquira tal grau de atração que seja semelhante às nossas extraordinárias tradições culturais e científicas. (Bolonha:1998)

No Brasil, uma eleição para reitor da maior universidade brasileira está se aproximando, o projeto de ensino a distância está silenciosamente entrando nos quadros do ensino superior, fundações privadas que financiam grupos de pesquisas a serviço do mercado. E cadê os estudantes, a força da voz estudantil, para reverter tudo isso?

A cara da Reforma de Córdoba presente no Manifesto de Córdoba de 1918 – a intervenção dos alunos na direção das universidades e o funcionamento de cátedras livres, ao lado das oficiais, com direitos idênticos – estão longe dos projetos atuais. O conceito de autonomia universitária e a idéia de auto-gestão presentes nas exigências dos estudantes de Córdoba perderam espaço nas falas dos estudantes. Progressivamente esta autonomia se reveste de um significado institucional, de maior liberdade contratual. A crise da universidade na atualidade é a crise de um projeto dentro dos parâmetros desta outra universidade que não está se constituindo mais democrática, mais justa, mais republicana, mais humana e menos medíocre. Os estudantes perdem espaço enquanto movimento social quando deixam de questionar criticamente as questões da nação, ou de um projeto de educação. Sem dúvida, a pauta não está esgotada: em um país como o Brasil, com tanta desigualdade social e ainda dependente científica e tecnologicamente de outros países, os estudantes não podem ficar apáticos. Estouramos o prazo do momento de conquistar a autonomia universitária, inclusive financeira, a democratização do acesso à educação superior e qualidade na educação pública. Basta saber onde está o interesse por questões do coletivo, onde está a cabeça desses estudantes que não tiram seus olhos do próprio umbigo.

Por Universidade para quem?

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