Passeata_Ocupação

Em contribuição para este blog, publicamos texto de Diego Navarro bastante pertinente sobre a situação atual do Movimento Estudantil.

O Movimento Estudantil da USP precisa se reinventar

Por Diego Navarro

Virou pauta de jornal: o 51º congresso da União Nacional dos Estudantes, aberto pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, foi amplamente discutido em programas de rádio e TV, colunas de jornal e blogs. A “grande” impressa de nosso país, que geralmente dedica no máximo uma pequena nota a esse tipo de evento, fez um amplo debate sobre o estado atual da UNE, o aparelhamento da entidade pelo PC do B e, principalmente, ao estratosférico financiamento que  a entidade recebe do governo federal.

No entanto, o que ainda é novidade para os esses tablóides, desde muito tempo é fato conhecido para o movimento estudantil de São Paulo.Um exemplo:

Durante a ocupação da Reitoria da USP em 2007, a então gestão do DCE “Camarão que dorme a onda leva”, composta majoritariamente por militantes de PT, PC do B e PMDB foi inicialmente contra a ação dos estudantes, e, mais, durante os 51 dias de ocupação a gestão patinou, patinou e acabou caindo em desgraça no seio do movimento, sendo vaiada em todas as assembléias e quase sofrendo um “impeachment”.A UNE só fez uma moção de apoio à Ocupação uma semana após seu término.

Aproveitando o espaço vago no poder, diversas correntes políticas tentaram ocupar o vácuo e dirigir o movimento grevista, não conseguiram, seja por logo terem pedido pela desocupação (caso de PSTU e PSOL), seja por não conseguirem dialogar com o corpo estudantil. Fato é que para todos estudantes independentes (termo certamente insatisfatório para designar àqueles que não estão ligados a partidos políticos), ficou bem claro que algo de muito errado havia com as entidades e partidos envolvidos no movimento, e precisava ser mudado.

Seria uma missão hercúlea (e infrutífera) elencar aqui todas as práticas partidárias que emperram o movimento estudantil, assim como cabe sempre ressaltar que este texto não pretende generalizar todo o ME, afinal, cada corrente tem suas políticas e práticas, onde umas erram outras acertam, e vice-versa. Mas fato é que já há muito tempo diversos setores têm visto o movimento estudantil como tão somente uma escola para a formação de quadros políticos e, portanto, suas prioridades deixam de ser as especificidades  universitárias para serem a de seus partidos, assim como práticas e linguagem viciadas, ossificadas, em dogmas políticos acabam afastando aquele e aquela que não consegue se inserir nos padrões do movimento. Mais uma vez cabe um exemplo. Há anos é impossível para qualquer grupo de estudantes não partidários disputar eleições dos DCEs das grandes universidades.Isso porque os partidos e correntes interessados em tais agremiações movimentam todo seu aparato (militantes, dinheiro, cotas de xerox etc.) para a eleição desejada. A competição além de injusta tornou-se absurda. Durante a mais recente eleição do DCE da USP surgiram militantes de todo país, assim como sindicatos que apoiavam esta ou aquela chapa (com apoio financeiro, xerox, gráfica etc.) e, por fim, um caso mal explicado de violação de urna em Ribeirão Preto deslegitimou inúmeros votos. O caso segue até hoje sem esclarecimento razoável.

O que era um incômodo em 2007, transformou-se num inferno em 2009. A briga pela direção do movimento fez com que ele se esfacelasse, em diversos momentos os atritos entre o DCE (dessa vez composto majoritariamente pelo PSTU) e correntes como MNN e PCO fez com que o corpo estudantil se dividisse em momentos onde a união era fundamental, inclusive diante da Polícia. Por sua vez os militantes independentes não conseguiram dar forma ao movimento.Se em 2007 a ocupação da Reitoria gerou um espaço físico a ser disputado, onde as pessoas não só discutiam, teorizavam e faziam política, mas antes de tudo viviam política e davam um exemplo de organização democrática, neste ano faltou o empenho ou talvez a organização necessária para criar espaços dinâmicos e permanentes de vida política.

Que a UNE já não representa mais ninguém todos sabem, mas há algo de cínico nesses debates que fazem sobre o novo movimento estudantil, onde sentam as velhas correntes políticas.Talvez seja necessário a construção de uma nova entidade, talvez seja necessário brigar pelo controle da velha UNE, ou ainda esquecer esse antigo esquema de representação estudantil, mas antes de qualquer debate sobre a forma de reorganização é preciso pensar as práticas, reinventar o movimento a cada instante e lutar por um controle que venha da base.

O novo movimento estudantil está diante de problemas que o velho já enfrentava, partidos e correntes políticas precisam se livrar de velhos dogmas e repensar suas práticas, os militantes independentes precisam pensar no papel que exercem e assumir responsabilidades – às quais muitas vezes fogem –, e quem sabe até, criar uma nova denominação.

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