Na Folha de São Paulo de domingo, edição de 19 de julho,  saiu um bom texto, de Luiz Costa Lima falando sobre o desprezo pelas humanidades, que publicamos a seguir.

Filosofia barata

O papel do Estado como financiador das humanidades volta a ser questionado diante da crise econômica

 Por Luiz Costa Lima*

Há meses já não se ouve o economês. A crise do mercado teve tão estranho efeito linguístico?

Não, nenhuma coletividade esquece tão depressa seu dialeto.

Mas, afinal, isso não tem maior importância: antes de se considerar “ciência exata”, a economia costumava chamar-se “economia política” e, mesmo sem o economês, continua a ser.

A reflexão deriva de dois textos cuja única ligação está em terem sido lidos quase ao mesmo tempo. O primeiro dá profundidade temporal ao tema.

Antonio Machado abria um pequeno texto de 1922 com a pergunta que atribuía a Pío Baroja [ambos escritores espanhóis]: com que deve, de preferência, preocupar-se o Estado do futuro? Com a produção de alta cultura ou de cultura mediana?

Menos que a resposta do próprio Machado -“não esqueçamos que a cultura é intensidade (…) antes, muito antes que extensão e propaganda”-, ressalte-se a própria pergunta: ela se investe de uma incômoda atualidade.

Mas, afinal, resmungará o cético, que relação pode haver entre uma indagação formulada há quase um século, em um país distante, e o que se passa agora entre nós?

Contra a suspeita de arbitrariedade, vale que logo se acrescente a segunda fonte. Em “As humanidades hoje, em tempo de indigência” (no jornal suíço “Neue Zürcher Zeitung), Hans Gumbrecht reflete sobre os ecos da atual crise econômica, nos ambientes acadêmicos norte-americano e alemão.

Traduzo o parágrafo decisivo: “As humanidades (…) são uma manifestação de luxo das sociedades ricas. Em tempos de crise, é melhor afastar-se delas. Uma outra direção, em troca, difundida sobretudo nas universidades alemãs, se intimida ante o fim de uma opulência, antes desconhecida, do apoio à pesquisa, e a ela contrapõe o seguinte argumento: a qualidade da interpretação, da escrita e do debate filosófico, literário e histórico basicamente independe da existência do campo correspondente de pesquisas particulares ou de cursos de pós-graduação. É o contrário do que sucede nas ciências da natureza, cujo êxito depende da possibilidade de pesquisas coletivas e da disponibilidade de uma aparelhagem técnica sempre nova. Uma discussão filosófica produtiva não custa mais do que as horas de trabalho dos que dela participam”.

Papel do Estado

Para declarar por que o assunto nos toca, desenvolvo minha telegrafia. Considere-se, em primeiro lugar, a reflexão que o poeta Machado extraía de Pío Baroja. Presente em artigo de 1922, ela precede o colapso de 1929, antecessor do que hoje nos toca. Ou seja, a preocupação em o Estado investir antes em uma educação “básica” do que em uma “especializada” surge, nos países menos avançados, antes da primeira grande crise do capitalismo. Estranha menos, portanto, que ela ecoe em um “país em desenvolvimento” quase um século depois -trata-se de uma “afinidade eletiva”.

Venho então ao que extraio da passagem de Gumbrecht. É possível que, também entre nós, não falte quem creia que isso de humanidades é um luxo descartável. Por que o digo? Seja pela maior abundância de bolsas de pesquisa e da oportunidade de realização de pós-doutorados nas áreas que “burrocraticamente” se insiste em chamar de “exatas”, seja pela aceitação de nossas autoridades acadêmicas, em todos os seus níveis, de que a penúria de nossas bibliotecas é algo tão incontornável como um traço da natureza.

Não adianta perguntar por que incontornável: não teremos resposta. Ora, se o governo já assim age, o que impede que os editores privados cada vez mais restrinjam a edição de obras que não lhes assegurem um alto retorno?

Mais grave do que tudo que se disse acima é o encaixe das duas posições acima referidas com a política pedagógica que vem sendo implantada desde o governo anterior: a política da horizontalidade dos cursos.

Concretamente, ela significa: abrem-se mais turmas, as universidades aumentam suas cotas de alunos por áreas, favorecem-se os docentes que se interessam por temas mais “leves”, por fim, estimula-se o ensino à distância.

Maquiagem

Só pedantes elitistas, de espécie ignorada em um país culturalmente pobre como somos, seriam contrários ao incremento, em larga escala, da formação docente. Mas o que se observa não é incremento algum. É bastante óbvio que um mísero professor no interior dos Estados mais atrasados da Federação -e, por certo, não só deles- há de ter meios de minorar sua ignorância e, assim, de diminuir sua difusão entre os que o cercam.

Mas, sob o nome de incremento à formação, o que passamos a ter usualmente é maquiagem e embuste, os quais, por cima, são incentivados em detrimento do ensino especializado. Não creio que isso se dê em toda a extensão da universidade brasileira. Mas sei que se torna o pão de cada dia na área das humanidades.

Nesta, a pesquisa especializada é quase impossível pela má qualidade das bibliotecas; pelos prazos exíguos para que os alunos concluam seus trabalhos, suas dissertações e suas teses; pelo pouco intercâmbio com outros centros. Desse modo, as humanidades se tornam cada vez mais semelhantes a parques zoológicos, espaços habitados por animais de uma espécie em extinção.

*Luiz Costa Lima é crítico e professor na Universidade do Estado do RJ e na Pontifícia Universidade Católica (RJ).

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