Leitor deste blog enviou e-mail comentando o post “Univesp mais uma vez“. Além de um complemento ao que escrevemos, ele aproveita para dar umas estocadas na UNIVESP e no artigo do Carlos Vogt. Vale a pena a leitura, por isso publicamos a seguir.

Caros,

Li com interesse o artigo por vocês publicado sobre a UNIVESP (clique aqui para ler), comentando a carta do Carlos Vogt, secretário do Ensino Superior do governo Serra, publicada no jornal Folha de São Paulo (se é assinante da Falha ou do UOL clique aqui para ler), onde saiu em defesa da indefensável UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), e assinando-a como linguista e poeta. Mas, se me permitem, gostaria de comentar e pontuar mais alguns aspectos,  já que o secretário usa velhas formas de falar para não dizer nada.

O secretário afirma coisas como:

“A virtualidade da Univesp é também, por paradoxal que seja a afirmação, o que lhe dá realidade, presença e necessidade no cenário da educação superior em São Paulo e no Brasil.” (grifo meu)

E depois:

“O jovem vai à universidade, e a universidade vai à sua juventude como possibilidade concreta no caminho de sua trajetória social” (grifo meu)

Fechando com comovente conclusão:

“Dessa vez, as universidades se movem até eles e, neles, buscam também o abrigo vivo para o exercício pleno de sua missão maior, que é educar e, pela educação, transformar em cultura dinâmica para a vida os processos de ensino e aprendizagem, de produção, de difusão e de divulgação do conhecimento associados à responsabilidade ética e profissional que a formação universitária deve consolidar em seus estudantes.”

Apesar do tom emocional da sua escrita poética e sagazes jogos de linguagem, Vogt não faz qualquer alusão ao ensino a distância de forma concreta, o texto é mera descrição institucional do funcionamento da “universidade”, descrição quase que burocrática. Defesa quase departamental escondida sob a roupagem de bonitas palavras vazias e retórica florida.

Quando arrisca alguma afirmação mais incisiva diz coisas que dificilmente podem ser comprovadas na realidade. Ao tratar da rechonchuda dotação orçamentária do projeto, afirma que não haverá nenhum ônus adicional para as instituições parceiras (no caso, universidades estaduais). É bastante estranho ele dizer isso, porque, segundo elaboradores dos projetos de ensino a distância na USP, a UNIVESP só possui dotação orçamentária de 2 anos e foi, desde o princípio, colocada a clara perspectiva de que após esse período os custos serem absorvidos pelo orçamento das universidades.

Esta questão dos custos se confirma no seguinte trecho: “À Univesp cabe garantir as condições materiais, financeiras e tecnológicas para a realização desses cursos”, note-se que a UNIVESP não bancará, pelo menos não por mais de 2 anos, as condições “humanas”, isto porque o projeto não prevê ampliação do quadro docente e sim uma utilização das horas ociosas de professores das universidades paulistas. O problema fica mais grave se levarmos em conta que o elevado índice de evasão dos cursos de ensino a distância requer, como estratégia para motivação dos estudantes e manutenção da qualidade, uma razão estudante/tutor-professor bastante alta. Por isso, nos casos “bem sucedidos” de EaD, que muitas vezes tem gastos equivalentes (ou maiores) que o ensino presencial,  os recursos humanos compreendem a maior parte do orçamento dos cursos em funcionamento, e estes não serão garantidos pela UNIVESP. O que garantirá a UNIVESP serão apenas os investimentos iniciais para elaboração de materiais e compra de equipamentos.

Questões levantadas há tempos pelos estudantes tratando da dificuldade de garantir uma formação de professores com qualidade quando privados da vivência da sala de aula enquanto ambiente universitário; ou da falta de detalhamento sobre a contratação e capacitação dos tais tutores; ou uso do projeto como inclusão de estudantes de baixa renda sem qualquer garantia de qualidade ou acompanhamento especial visando manter intacto o atual quadro elitista das universidades públicas; são todas ignoradas pelo autor.

Vogt num dos raros momentos que tenta justificar a proposta EaD com base em uma questão prática, ressalta que ela proporciona “facilidades operacionais para o deslocamento geográfico do estudante”, mas não especifica que os tais pólos de auxílio presenciais, por estarem dentro das universidade já existentes, não atingem áreas rurais muito afastadas no estado, mas facilitarão apenas o deslocamento geográfico de pessoas que vivem próximas aos centros urbanos, demanda majoritária de acesso à universidade que poderia ser atingida com uma responsável e necessária expansão de vagas.

Surpreende-me que desta vez o idealizador da UNIVESP não tenha recorrido ao fato da necessidade de formar professores para o ensino médio. O assunto tem sido um dos principais eixos dele e dos defensores do projeto, que bradam com lágrimas nos olhos o drama dos 60mil professores da rede pública sem ensino superior completo. Talvez seja receio de ser questionado a respeito de sua gestão na Unicamp, e depois na FAPESP. Por que nada fez pela melhoria do ensino público? Nem ao menos um consórcio efetivo da universidade com a rede pública foi pautado a fundo no estado. Lembremos ainda, que de 2002 a 2007 durante sua gestão na FAPESP o professor – ao invés de recobrar e ampliar a sua capacidade de investimento em pesquisa científica e tecnológica que possibilitou o alardeado aos quatro ventos quando esses investimentos cresceram, respectivamente, 5,8% e 14,6% – não buscou priorizar linhas de pesquisa desenvolvidas junto à rede pública de ensino básico, como produção de materiais didáticos ou capacitação e especialização de professores na ativa.

Aqueles que nada fizeram durante anos, tentam nos fazer pensar que irão resolver todos os problemas da educação pública em um click:

http://www.agencia.fapesp.br/materia/7589/especiais/legado-permanente.htm

Por Demian Vignatti

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