Carlos Vogt e José Serra

Carlos Vogt e José Serra

O braço de ferro entre o governo do Estado e a comunidade universitária continua, prova disso é o artigo publicado por Carlos Vogt na Folha de São Paulo, edição de 15 de julho (Clique aqui para ler se vc é assinante do UOL ou da Falha), em que novamente uma voz oficial vem defender o suposto projeto de acesso à universidade pública, sem apresentar qualquer argumento concreto de como funcionaria a panacéia UNIVESP.

Se por um lado os opositores da Universidade Virtual de São Paulo já produziram documentos e mais documentos demonstrando as várias fragilidades do sistema montado pela cúpula tucana da Secretaria de Ensino Superior, por outro até o momento esta ainda não conseguiu responder as dezenas de dúvidas postas pela opinião pública. Seria má vontade ou a costumeira falta de diálogo do atual governo? Na verdade, além da falta de diálogo, comum a essa gestão, a verdade é que os defensores do projeto não têm muito o que defender ou com que argumentar. Quer ver?Então senta que lá vem história.

UNIVESP na USP, um breve histórico

2008, a Secretaria de Ensino Superior procura a USP tentando encontrar iniciativas que envolvam o ensino a distância. Num primeiro momento a fala apresentada por eles é de que o governo do Estado destinou uma grande verba para incentivar a criação de cursos a distância nas universidades estaduais paulistas, e que agora essa verba precisaria ser aplicada em projetos já existentes ou em estado de desenvolvimento. Foram encaminhados à uma comissão já criada há três anos e que preparava um curso de Licenciatura em Ciências. Os primeiros contatos foram travados e a secretaria oferecia toda estrutura necessária para a implementação do curso.

No entanto, o tempo passou e, apesar das promessas, um acordo formal não era fechado. Quando pressionados pela comissão elaboradora do projeto, a secretaria acabou assumindo que não havia ainda um contrato fechado entre as partes, e que o único documento oficial era uma minuta, onde se estabelecia um convênio que expediria diplomas USP-UNIVESP.O impasse foi posto. Professores da USP entendiam que o acordo só faria sentido se o governo do Estado entrasse como financiador e não como co-autor do projeto, portanto o aluno do curso seria um aluno USP e ponto.Tal acordo não interessava a outra parte, que então se desvinculou da comissão e foi procurar apoio em outras unidades.

Começa então, entre final de 2008 e inicio de 2009, uma corrida pelo ouro, a secretaria precisava que departamentos da USP, UNESP e UNICAMP apresentassem projetos de cursos adaptados ao modelo “univespiano”. Em todas faculdades das três estaduais foram implementadas comissões de estudo sobre o projeto, vale a pena aqui citar o caso da Faculdade de Letras da USP.

A proposta inicial da UNIVESP era que a Letras oferecesse cursos de formação de professores de Português, uma vez que o número de professores na rede era escasso. No entanto, após longa e elaborada pesquisa a comissão de docentes responsáveis por analisar o projeto chegou a conclusão que não faltavam professores no ensino público, pelo contrário: sobravam. Necessária sim era uma especialização para esses docentes, que muita das vezes careciam de boa formação pedagógica. A equipe então elaborou uma contraproposta, sugerindo a especialização de professores, tal projeto foi veementemente descartado pela outra parte, que então desistiu de qualquer acordo com a Faculdade de Letras da USP, já que não aceitaram qualquer alteração no projeto original da Secretaria de Ensino Superior. Como resultado, o curso de Português contido na UNIVESP, levou o governo a migrá-lo da USP para a UNICAMP.

A história se repetiu em diversas unidades da USP, com atores e divergências várias, mas sempre apresentando o mesmo padrão: quando confrontado ou questionado o projeto, os responsáveis pela UNIVESP recuavam, desistiam de qualquer acordo que não aceitasse a unilateralidade do proponente e partiam para outra freguesia.

Nos lugares onde conseguiu aprovação, a UNIVESP está sendo duramente criticada pela comunidade acadêmica, como no curso de Biologia da USP, em que um curso elaborado em  apenas duas semanas foi aprovado sem qualquer debate entre as partes. Segundo alunos, o currículo desse curso semi-presencial é o mesmo do presencial, não trabalhando as especificidades que em um currículo de EaD fazem necessários e incortonáveis.

Tal postura dos patronos da UNIVESP demonstra claramente que a tão alardeada Universidade Virtual não passa de uma tentativa desesperada do governo tucano de apresentar material de propaganda para as eleições do ano próximo. Só isso para justificar a pressa com que querem implementar o projeto. No entanto, a ausência de diálogo, a ingerência e falta de preocupação com o pedagógico, levaram a Secretaria de Ensino Superior a sequer conseguir fechar acordos com setores dentro das universidades que são simpáticos à ideia do ensino a distância. Tendo em vista tudo isso e a movimentação estudantil contra a UNIVESP, o senhor Vogt foi obrigado adiar o projeto para 2010.

Artigos como o de Carlos Vogt só servem para demonstrar o desespero que se apodera deles nesse momento. Portanto, é fundamental que professores e estudantes continuem se articulando para desmascarar a farsa da UNIVESP, que, como já dissemos, visa menos a educação que 2010.

Por Universidade para quem?

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