Recentemente estudante ligado ao movimento estudantil da Croácia, na Universidade de Zagreb,  enviou carta aberta (clique aqui para lê-la) a todo ME da USP, dando ciência das lutas que travam em seu país e em toda Europa contra a mercantilização da educação. Assim que tomaram conhecimento dos fatos ocorridos na USP, em especial da invasão da Polícia Militar, voltou a escrever enviando nota de apoio ao movimento grevista da USP e de repúdio à ação da PM (clique aqui para lê-la).

Hoje, encaminhamos carta-resposta ao supracitado estudante, agradecendo o apoio, bem como levando mais detalhes da realidade vivida por nós, que não é muito diferente da que se passa na Croácia. Destaque-se: ele está ciente de não falarmos em nome do Movimento Estudantil como um todo, mas de um grupo que milita no ME. Situação que é mesma do Dunja Antonovic e seus colegas.

Abaixo, segue nossa carta nas versões em português e inglês.

Caro Dunja Antonović,

Escrevemos uma resposta dizendo talvez obrigada pela moção de apoio. Ou talvez para apoiar a luta de vocês. Também somos um grupo de estudantes independentes tentando juntar forças e muitas das questões que você levanta estão estritamente relacionadas com as questões levantadas por aqui.

Vivemos uma greve que mobilizou durante dois meses funcionários, professores e estudantes. Um trabalhador membro do sindicato dos funcionários foi demitido por razões políticas, as condições de trabalho dos funcionários deixam a desejar, principalmente por esses motivos, foram os funcionários que iniciaram esta greve. Estudantes e professores ainda não haviam aderido à mobilização oficialmente, em assembléia geral. Durante as atividades de greve dos funcionários, a reitora chamou a polícia. Foi então que professores e estudantes aprovaram a paralisação das aulas, por entender que a universidade deve ter autonomia política sem a interferência do aparato de repressão do estado.

Junto à pauta de retirada da polícia do campus, estavam mantidas as pautas dos funcionários. Os estudantes reivindicavam (desde antes da entrada da polícia) o fim de um curso a distancia (UNIVESP) elaborado arbitrariamente pelo estado de São Paulo sem consulta aos professores e estudantes e que propõem um modelo de ensino superior o qual somos contra. Os professores questionavam as mudanças no plano de carreira.

Em uma das atividades de greve, juntamos estudantes e funcionários de outras universidades públicas. Fizemos um ato pacifico pela retirada da policia do campus e o retorno às negociações. Durante este ato, a polícia invadiu o campus confrontando com os manifestantes em uma ação de extrema violência.

Após algumas semanas de manifestações de repudio à ação da reitora, a polícia foi retirada do campus e as negociações foram retomadas. Os funcionários e professores conquistaram algumas de suas reivindicações. Ainda não foi decidida em assembléia a saída dos estudantes da greve. Estamos em período de férias e nada está definido. Esperamos a volta às aulas.

As questões geradas durante a greve não foram novidade para muitos já envolvidos, mas se torna cada vez mais necessária uma discussão mais aprofundada levando em consideração as razões que estão nas bases destes eventos e acreditamos que, apesar das especificidades Históricas locais, essas razões sejam pertinentes a muitas das universidades públicas de outros países.

“The right to an education is the fundamental right of every citizen of this country. Rights are not there to be bargained with, nor offered up on the market”.

A USP, Universidade de São Paulo, é uma universidade pública gratuita. Essa gratuidade, no entanto, é ameaçada por parcerias privadas e por uma postura política autoritária por parte do governador do estado de São Paulo. Essas intervenções (privadas através das fundações – investimentos de iniciativa privada em alguns projetos na universidade – e públicas através do autoritarismo do governador do Estado) são o que queremos combater para conquistar verdadeira autonomia universitária. Isso significa maior acesso à universidade, uma vez que o ensino secundário público (também gratuito) é de péssima qualidade dificultando a população de baixa renda o ingresso na universidade. Lutamos também, pela definição do caráter público, desvinculando a produção acadêmica das exigências do mercado. Notamos, no entanto, que temos pontos comuns de luta e precisamos desta troca de experiências para estudar as possibilidades de construção de uma real autonomia universitária.

Suas atividades durante as mobilizações foram admiráveis, o site http://slobodnifilozofski.org/ está muito bem organizado. Enviamos nosso apoio à luta de vocês e estamos à disposição para qualquer discussão mais detalhada.

Universidade para quem?

≡≡≡≡•≡≡≡≡

Dear Dunja Antonivic,

We are writing a reply thankfully for your motion of support. Or perhaps to support your struggle. We are an independent group of students trying to join forces and many of the issues you raise are strictly related to the issues we have been raising here.

We have lived a strike that mobilized university staff, professors and students. An unionized staff member was fired for political reasons and the working conditions of these employees could be much better. Mainly for these reasons, the university staff went on strike first. Students and professors had not yet joined it officially on assembly. During the strike activities, the dean, supported by the government of São Paulo, called the police. That was the main reason for professors and students to suspend the classes; because of the belief that a public university should have political autonomy without interference from any repression.

Along with the withdrawal of the police from the university campus, the staff demand was kept. The students demand (since before the police came to the campus) was mainly the end of a distance/virtual degree course (UNIVESP); it was prepared arbitrarily by the government of São Paulo, without consulting professors or students and it is a model of high education which we disagree with. The professors were questioning the changes in their career term.

At one of the strike activities we called students and staff from others Brazilian public universities. On June 9th, we were doing a peaceful demonstration to withdrawal the police from the campus and return the negotiation. During this demonstration the police invaded the campus to confront us. They acted out in extreme violence.

A week later, after several activities repudiating the dean and the government decision, the police were removed from the campus and the negotiation was resumed. The staff and the professors gained some of their claims and suspended the strike. The students have not yet decided. We are on vacation time and nothing is set. We are waiting for the classes to return.

The issues that once more came across during the strike were not new for many of us who are already involved in the struggle for real university democracy. However, we understand that a further discussion becomes increasingly necessary . We need to take in hand the reasons that are behind of these events and we believe that, despite of the specific local Historical facts, these reasons are relevant to many of the public universities all over the word.

“The right to an education is the fundamental right of every citizen of this country. Rights are not there to be bargained with, nor offered up on the market.”

Although, USP (University of São Paulo) is a free public university, this reality is threatened by private partnerships and the way the government of São Paulo behaves. These interventions (either through private companies – private investments in some university projects – or through official decision – the authoritarian dean and government action) are what we want to cease to get the real university autonomy. This means greater access to university; since the public secondary school (free as well) has a very bad quality, it is hard for low income people to get in the university. We fight also to define the public character of public university and to unlink academic production with market requirement.

Therefore, we believe that we have a lot struggle in common and we need this exchange experience to find out the way to get this autonomy. Your activities during the mobilization were admirable and the website is very well organized. We send our support to your fight and we are available for any sort of detailed discussion.

Universidade para quem?

Anúncios