Em geral as nossas normas e o estatuto não são conhecidos, senão que constituem um segredo do pequeno grupo de burocratas que nos administra. Embora estejamos convencidos de que este antigo estatuto é cumprido com exatidão, é extremamente mortificante ver-se regido por normas que não se conhecem. Não penso aqui nas diversas possibilidades de interpretação nem nas desvantagens que se derivam de que apenas algumas pessoas – e não toda comunidade universitária – possam participar da interpretação. Talvez estas desvantagens não sejam tão grandes.

O Estatuto é tão antigo que os séculos contribuíram para sua interpretação e esta interpretação já se tornou norma também, mas as liberdades possíveis a respeito da interpretação, mesmo que ainda subsistam, acham-se muito restringidas. Além do mais, a Reitoria e o Conselho Universitário não tem evidentemente nenhum motivo para deixar-se influir na interpretação por seu interesse pessoal em nosso prejuízo, já que as normas disciplinares do Estatuto foram estabelecidas desde as suas origens por ela mesma; a qual se acha fora do Estatuto, que, precisamente por isso, parece ter-se posto exclusivamente em suas mãos. Isto, naturalmente, encerra uma sabedoria de quem duvida da sabedoria das antigas normas, mas ao mesmo tempo nos é mortificante, o que provavelmente é inevitável. Além do mais, estas aparências de normas apenas podem ser na realidade suspeitadas. Segundo a tradição existem e foram confiadas como segredo à Reitora, mas isto não é mais do que uma velha tradição, digna de crédito pela sua antiguidade, pois o caráter dessas normas exigem também manter em segredo sua existência.

Mas se nós, estudantes, professores de todas as categorias e funcionários, seguimos atentamente a conduta da Reitoria desde os mais remotos tempos, e possuímos anotações das gerações anteriores referentes a isso, e as temos prosseguido conscienciosamente até acreditar discernir nos fatos inumeráveis certas diretrizes que permitem concluir sobre esta ou aquela determinação histórica, e se depois dessas deduções finais cuidadosamente peneiradas e ordenadas procuramos adaptar-nos de certo modo ao presente e ao futuro, tudo aparece então como incerto e talvez como simples jogo de inteligência, pois talvez essas normas que aqui procuramos decifrar não existam. 

Há um pequeno partido que sustenta realmente esta opinião e que procura provar que quando um Estatuto existe apenas pode rezar que: o que a Reitoria faz é o Estatuto. Esse partido vê apenas atos arbitrários na atuação da Reitora e rechaça a tradição popular, a qual, seguindo o seu parecer, apenas comporta benefícios casuais e insignificantes, provocando em troca graves danos, ao dar às três categorias uma segurança falsa, enganosa e superficial com respeito aos acontecimentos do futuro. Não pode negar-se este dano, mas a maioria esmagadora de nosso povo vê sua razão de ser no fato de que a tradição não é nem mesmo ainda suficiente, que, portanto, há ainda muito que investigar nela e que, sem dúvida, seu material, por enorme que pareça, é ainda demasiado pequeno, pelo que terão que transcorrer séculos antes de que se revele como suficiente. O obscuro nesta visão aos olhos do presente apenas está iluminado pela fé de que virá o tempo em que a tradição e sua investigação conseqüente ressurgirão de certo modo para pôr ponto final, que tudo será aclarado, que as normas e estatutos apenas pertencerão à comunidade universitária representada pelas três categorias e o Conselho Universitário terá desaparecido. Isto não é dito por ninguém e de modo algum com ódio contra a Reitoria. Melhor, devemos odiar-nos a nós mesmos, por não sermos dignos ainda de ter uma Instituição Democrática. E por isso, esse partido, na realidade tão atraente sob certo ponto de vista e que não acredita, em verdade, em estatuto ou norma alguma, não aumentou as suas fileiras, e isso porque ele também reconhece a Reitoria e o direito de sua existência. Em realidade, isto apenas pode ser expresso com uma espécie de contradição: um partido que, junto à crença nas normas, repudiasse a Reitoria como instituição e não os reitores ocupantes do posto, teria imediatamente toda a Comunidade Universitária ao seu lado, mas um partido semelhante não pode surgir porque ninguém se atreve a repudiar a Reitoria e o Conselho Universitário. Sobre o fio deste cutelo vivemos.

Um escritor resumiu isso certa vez da seguinte maneira: a única norma, visível e isenta de dúvida, que nos foi imposta, é a Reitoria e o Conselho Universitário, e desta norma haveríamos de nos privar a nós mesmos?

 Publicado originalmente em http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2008/03/414272.shtml
Anúncios