Medicina USP_Fachada

As mudanças no vestibular da USP cindiram a prova para o curso de Medicina em duas. Para São Paulo a prova da segunda fase fica como está, ou seja, haverá provas específicas de química, biologia e física, já Ribeirão Preto troca a última por geografia. Esta diferença deu-se por conta de divergência entre as duas Faculdades. Ribeirão propunha mudança com o intuito de mudar o perfil do estudante de Medicina, que este tivesse uma formação não apenas técnica mas também humanística. Difícil dizer se essa pequena alteração mudará alguma coisa no traço dos que entram para esse curso. No entanto, a simples intenção deve ser vista com bons olhos. Afinal, tradicionalmente a Faculdade de Medicina da USP forma médicos com uma forte tendência mercantilista, sendo, inclusive, as especializações mais rentáveis as que recebem maior investimento da Universidade.

O professor Milton de Arruda Martins, presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Medicina, defendia  mudança para as duas Faculdades, no entanto, a comunidade de São Paulo resistiu duramente à qualquer possibilidade de alteração no perfil dos novos ingressantes na medicina. Os próprios estudantes da Capital fizeram assembléia para discutir o tema, cuja pauta incluía também a greve na USP deste ano. Esta nem chegou a ser debatida, centrou-se toda preocupação na questão do vestibular, que para maioria era absurda. Alguns chegaram a dizer, num trocadilho revelador, que estavam querendo transformar a FMUSP em FFMed (sic).

Mudanças na porta de acesso da USP são urgentes e necessárias, não apenas para buscar maior diversidade de pensamento dos que aqui ingressam, mas fundamentalmente o perfil social, visto que a base atual é oriunda da classe média, que tem cada vez mais enxergado a USP como um projeto pessoal de ascensão social, o que sem dúvida é inaceitável para uma universidade que vive basicamente de ICMS, imposto pago em larga medida pelas pessoas de baixa renda. Portanto, se a divergência entre as Medicinas e a mudança superficial posta em prática por Ribeirão Preto, são por um lado fatos superficiais, por outro deixam entrever o quanto boa parte da comunidade desta Universidade é conservadora, havendo aí uma questão envolvendo o público e o privado para além de um simples problema de classe como se costuma afirmar. Dito de outra forma, temos uma apropriação privada da coisa pública.

Parece-nos cada vez mais essencial pressionar para colocar na agenda pública o debate de para quê e para quem a USP existe. No entanto, devido ao forte conservadorismo de boa parte dos que estão dentro dos muros da Universidade, não basta a pressão vir de dentro, é necessário que parta também de fora, em especial dos movimentos sociais e dos que têm o acesso negado à Universidade. Alguém pode alegar que isso seria interferência na autonomia universitária. Não. O que é e para quem é a Universidade deve ser objeto de debate público, fato que não existiu até hoje. As deliberações que levem em conta este debate, são objeto interno e de decisão exclusiva da comunidade universitária, cujo resultado deveria ser apresentando publicamente, onde se diria “Este é o nosso projeto, nosso compromisso público, cobrem-nos por isso”. Uma coisa nem outra também não existiu até hoje, afinal, deliberam sobre os rumos uns poucos ligados à USP, que na maioria das vezes estão conectados a fundações de direito privado, empresas, Fapesp ou simplesmente submissos aos interesses do governo do Estado, tampouco apresentamos até agora qualquer coisa a ser cobrada pela sociedade.

Nesse diapasão, talvez faça algum sentido o editorial da Folha de São Paulo, que exigiu da USP buscar financiamento externo para não mais onerar o contribuinte paulista, aliás, a Folha deveria ter sido mais coerente, exigindo que ela se privatizasse de vez, abrindo mão do ICMS, seria preferível isso do que usar dinheiro público para atender demandas privadas e do grande capital, como ocorre hoje em grande parte dos cursos, pesquisas e projetos.

Nossos colegas da Casa de Arnaldo que nos perdoem, mas a ideia hegemônica que lá grassa sobre universidade, não tem nada de público.

Por Universidade para quem?

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