A professora Dilma de Melo Silva (ECA/USP) deixou comentário a um dos textos deste blog, falando sobre os lamentáveis acontecimentos de 09 de junho e sobre a crise que a USP encontra-se. Pedimos para publicá-lo, a professora Dilma gentilmente autorizou, e o fazemos agora.

Lembrar é preciso!

Por Dilma de Melo Silva

Antonio Cândido na Apresentação do livro Tiradentes, um presídio da ditadura, comenta que muitos dos homens e mulheres que deixaram nessa obra o testemunho de um período amargo da história do nosso país, desejavam que tudo aquilo tivesse sido banido de nosso universo. Contudo, os fatos ocorridos no campus da USP no dia 09.06.09 nos remetem aos anos 1960 e 1970.

Primeiro, relembro o confronto na Rua Maria Antonia onde cursava Ciências Sociais na FFLCH, e ocorreu o enfrentamento com integrantes do CCC. Fomos obrigados a continuar o curso nos barracões do Butantã

Naqueles anos vimos, O Encouraçado Pontenkim do Eisenstein num dos favos da Colméia (onde ficavam as Letras nos anos 70, antes da construção dos prédios atuais da FFLCH) mesmo com o CRUSP “interditado” e, nós, cercados de agentes do DOPS infiltrados em todos os lugares, sobretudo nas assembléias realizadas sob chuva ou sol – essas lembranças foram retomadas por uma aluna da pós graduação…

Assistimos Galileu Galilei, de B. Brecht, na Politécnica, Plínio Marcos, e shows como os do Milton Nascimento, na arquibancada natural do Caramelo da FAU.

Tais episódios aconteceram ao mesmo tempo em que nos mobilizávamos e líamos os informativos “clandestinos” sobre o desaparecimento ou prisão de colegas, professores, artistas, operários.

Para mim, não havia mais condições para uma pós-graduação em Sociologia na USP, pois meus orientador e a esposa (também docente da USP) estavam presos. Fui para Europa e obtive meu mestrado na Suécia, regressando ao Brasil em 1981, ingressei no doutorado e iniciei minha carreira docente na ECA, no CCA.

Penso que neste momento tenso, de contradições acirradas, devemos nos posicionar, buscar o rompimento da estrutura de poder autoritário que ainda permanece em nossa Universidade. O ideário que orientou nossa luta contra a ditadura militar e o AI-5 deve estar presente em nós e nos mobilizar em busca de soluções coletivas.

A sensação incômoda de já ter vivenciado essa situação: presença da Polícia Militar em nosso campus sob a justificativa da “defesa dos princípios democráticos” e do “patrimônio público” permanece em todos nós; e essa realidade é intolerável.

Afinal, somos ou não a melhor instituição universitária da América do Sul, conforme pesquisa de 2008 realizada pelo Institute of Higher Education da Shanghai Jiao Tong University, ocupando a 121ª posição no ranking? Sendo assim, devemos ter competência para resolvermos nossos problemas e conflitos sem a intermediação da força.

Quanto á questão salarial, um dos itens mais importantes da pauta de negociações, poderia ser retomada sem grandes traumas, afinal, o professor doutor José Camargo Engler, integrante da Comissão de Orçamento e Patrimônio da USP, declarou à imprensa: “Não há crise financeira na USP, a USP não está falida. Ao contrario.O crescimento do consumo e estímulos à arrecadação – como a Nota Fiscal Paulista – levaram a Universidade à atual fase de expansão de receitas” (Folha de São Paulo, 21.06.09, p.C4)

Assim, faço minhas as palavras da colega da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, professora doutora Adma Fadul Muhana: A Universidade deve se envergonhar de que uma parte do seu corpo docente e discente não condene a ação policial contra atos de caráter político: pois isso significa que essa parte não se importa com o coletivo e com o tipo de conhecimento e ética que estão sendo transmitidos nessa Universidade. A sociedade deve saber disso e querer que, na Universidade de São Paulo, os professores, os médicos, os arquitetos, os atores, os engenheiros, os biólogos, os psicólogos e todos os que aí se formam, com a contribuição de todos nós, visem mais ao bem coletivo que ao seu único e próprio lucro. E fazer parte da coletividade implica ter de olhar para além do seu escritório particular, do seu consultório e da sua sala de aula.

Agora a Universidade de São Paulo está em greve, exigindo a retirada imediata e definitiva da polícia no campus, para que retornem as condições de diálogo entre todos os envolvidos. Mas desde que a Universidade foi violentada com a permissão, ou pior, a mando de seus dirigentes, os professores requerem que a atual reitora se afaste do cargo e torne a ser algo de que possa se orgulhar: professora. Oxalá, assim, o próximo reitor compreenda que uma universidade não se faz virtualmente, nem com tropas militares, mas com docentes, estudantes e funcionários preocupados com o ensino e com a pesquisa, e sobretudo, com fazer parte de uma menos triste humanidade.

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