FFLCH_mercado

Em 2007, um blog de estudantes, que cessou suas publicações, questionava a parceria feita entre CEDEC, FFLCH e Odebrecht, para evento organizado pela FFLCH sobre a Revolução Russa de 1917. Isso causava estranheza, afinal, que diabos a Odebrecht fazia no meio disso. À época, um estudante escreveu ao referido blog procurando desfazer a estranheza.

Recordamos isso porque nos dias correntes diz-se muito que a FFLCH é vermelha e seus estudantes vermelhinhos (antes também, mas agora isso é cada vez mais estranho), isso só pode ser fruto de anacronismo, afinal, cada vez menos a FFLCH está à esquerda ou, ainda, em bloco na defesa da autonomia universitária. Resta pouco de autonomia intelectual plasmada em ato. Relembrar o caso Odebrech-FFLCH-CEDEC, não pela sua excepcionalidade, mas pelo que vai se tornando corriqueiro, ajuda-nos a entender melhor a dicotomia entre o que se diz e o que se faz.

Por isso publicamos agora a carta do aluno que escreveu para o blog supracitado. O que ele dizia, particularmente o que citava, ajuda um tanto a compreender o que se passa hoje.

Lá se vão dois anos, talvez o autor nem seja mais aluno da USP, mas certamente ainda deve estar espantado com tudo o que se passa nesta Cidade Universitária.

Por fim, felizmente um colega nosso tinha essa carta salva em seus arquivos, e oportunamente nos sugeriu lançá-la por aqui.   

O mistério da parceria FFLCH/Odebrecht

por Robério MIckiewicz

(Escrito em 03 de novembro de 2007)

Oi, pessoal.

Tenho acompanhado o blog de vocês e vi que abriram – finalmente – espaço para os leitores. Gosto do que vocês fazem e procuro me manter informado. Só não participo mais por conta da minha timidez. Não consigo falar nem na sala de aula, imagine numa assembléia. Mas agora posso opinar por escrito.

Descobri o blog por conta da notícia que vocês deram em primeira mão de que a construtora Norberto Odebrecht está co-patrocinando um evento organizado pela FFLCH sobre … A Revolução Russa de 1917.

Conversei muito sobre isso com alguns amigos e colegas no RU e em mesas de bar. Uns acham que ela nem sabe direito o que está patrocinando, outros imaginam que tem um cara lá no setor de cultura que já foi do partidão, outros afirmam que eles acham que 1917 foi algo inofensivo. Como vêem, um festival de besteiras.

No dia 19 de outubro saiu uma matéria na Folha de S. Paulo, pág. A19, com o seguinte título: “Odebrecht paga livro sobre Bolívar”. Essa é fácil de entender. Até o repórter da Falha conseguiu perceber que a explicação passa pelo fato de que a construtora “possui diversos empreendimentos naquele país”.   

Fiquei meditando sobre o patrocínio ao evento da FFLCH e do Cedec, mas não consegui encontrar uma explicação convincente. Ontem, no entanto, lendo um livro da bibliografia de um curso que estou fazendo na Educação deparei-me com um trecho que me ajudou a entender melhor esse imbróglio.

O truque é inverter a coisa. A chave não está em tentar entender porque a Odebrecht patrocina, mas sim em explicar porque a Universidade aceita, busca, e até julga normal, esse regime de mecenato.

O trecho é meio longo, mas acho que vale a transcrição:

[…] acusadores e neoliberais juntam suas vozes para propor-nos a salvação. Esta aparece numa palavra mágica: modernização. O que é a modernização proposta? Pode ser resumida em três pontos: 1. escolarizar definitivamente a graduação, destinando-a a formar professores de segundo grau; 2. afunilar a pós-graduação para preparar pesquisadores cujo desempenho os habilitará a participar de núcleos , institutos e centros de excelência da USP, ou fora dela; 3. estabelecer vínculos orgânicos com empresas estatais e privadas para financiamento das grandes pesquisas a serem realizadas nos institutos, núcleos e centros de excelência.

Qual critério determina a excelência? Longe de ser acadêmico, o critério será dado pelo mercado: quem conseguir penetrar vitoriosamente no mercado será excelente, quem não o conseguir será inessencial. Critério coerente, uma vez que a fonte de recursos para a pesquisa é empresarial.

“Modernizar” é criar a “universidade de serviços”, baseada na docência e pesquisa “de resultados”. A salvação modernizante consiste em levar a idéia e a prática da privatização do público às suas últimas conseqüências, pois as pesquisas não serão privatizadas apenas pelo financiamento, mas porque serão reduzidas a serviços encomendados cujos critérios, objetivos, padrões, prazos e usos não serão definidos pelos próprios pesquisadores, mas pelos “mecenas”.

O que é fantástico nessa modernização é a carga de arcaísmos que carrega sem saber […]  (como) o reaparecimento do mecenato. Se este foi fundamental para liberar as humanidades e as Artes do poderio eclesiástico, foi somente comente com sua desaparição que se tornou possível o surgimento, este sim moderno, da dimensão pública dos conhecimentos. A única diferença entre o antigo e o novo mecenas está no fato de que o primeiro patrocinava saberes e artes em vista do prestígio, enquanto o segundo, em decorrência da transformação dos conhecimentos em forças econômicas produtivas, os financia seguindo a lógica do capital.  

O artigo não é tão pessimista como o trecho sugere. A autora lembra que “não estamos resignados nem conformados, como se esmagados por um destino inelutável

Em tempo: O artigo se chama “O mal-estar na Universidade: o caso das humanidades e das ciências sociais”. Foi uma comunicação apresentada pela professora Marilena Chauí num simpósio internacional organizado pela FFLCH em 1994. Nessa época eu estava aprendendo as primeiras letras com a Tia Clotilde. Mas tenho quase certeza de que os organizadores do evento sobre a revolução russa de 1917 estavam lá, aplaudiram bastante e saíram reconfortados com mais um ato de resistência ao neoliberalismo…

Robério Mickiewicz

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