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Editorial da Folha de São Paulo (edição de 02 de julho)  pode ser mais aviso que opinião

Realmente o diagnóstico de que a Universidade não tem mais função no projeto oligárquico paulista, parece verdadeiro. Não conseguindo instrumentalizá-la diretamente, querem jogá-la no lixo de vez.

Alguns ficarão tristes com a próxima etapa que deve seguir o que aconteceu na França, onde seis meses e meio de greve, com um milhão de participantes, não deu resultado contra a mudança administrativa e o projeto de mudança dos campi para a periferia do País. Além de que o próprio projeto acadêmico foi para o saco. O futuro é um vortex.

É bom lembrar que somos das últimas gerações e que deveríamos pensar num projeto de formação paralela à instituição, que cumprisse esta função, seja na idéia de universidade popular, ou na produção de outra forma nos movimentos sociais, o que igualmente falhou.

No mais, esse é o resultado de quando se precariza o trabalho e o logo_vanzoliniensino a tal ponto, com o deslocamento da universidade para a periferia de um projeto político mínimo (que se refletirá fisicamente no distanciamento da universidade para áreas afastadas das cidades), apesar de ser feito por criaturas formadas aqui, além da permissão que este espaço seja reprimido como outro lugar qualquer, resultado do fim de um compromisso com um projeto humanista ligado à produção de conhecimento, precário mas semi-vivo.

Tudo isto acabou, agora, o projeto político é a sociologia do cacete, burguesia san phrase, sem discurso, sem verniz. Grana e porrada.

A partir de um apelo moral, a sociedade vem mudando e caminhando Flores PM USPrumo ao comprometimento com a violência necessária para a realização e manutenção de um mundo cada vez mais injusto, sequer procura disfarçar sua desumanidade com palavras bonitas. Sem ideologia, como a professora do departamento de Sociologia que defendeu o que inicialmente havia dito a polícia, mesmo que em comunicados oficiais se desmentisse, acusando os estudantes de jogarem ora paus e pedras, ora xingamentos, ora livros, quando o próprio comando da polícia, após averiguação, afirmou que os estudantes teriam dado as “mãos ameaçadoramente em torno dos policiais”.

Poderia-se dizer que não foi ingenuidade a posição da professora, no entanto ela não procurou apurar os fatos e ajudou a defender a polícia quando esta atacou não só estudantes, mas professores numa inocente reunião da Adusp. Ela aderiu ao compromisso com a repressão e tentou convencer os colegas de que os ataques sofridos eram para bem deles, isto é, era muito mais importante atacar os “grupelhos radicais” que provocavam atrito entre os pares que viviam harmonicamente até então.

Outra fato interessante na sequência,  foi a opinião pública favorável ao ataque, normalmente a imprensa seguiria à defesa do atacado. Mas hoje isso muda, pois, mesmo com imagens absolutamente contrárias ao que se escrevia, o texto venceu as imagens para o público paulista. Este fundacao%20faculdade%20de%20medicinaparecia apoiar-se em certo ressentimento contra aqueles que se manifestam politicamente – instigando a tomar posição os que desejavam permanecer alheios ou disfarçar seu compromisso com a ordem que se estabelecia, para implementarem programas do governo, que seriam utilizados para a campanha eleitoral de Serra. Ressentem-se da USP também os que simplesmente por estarem excluídos, identificam todos os que dela participam como parte da elite, o que não mais é verdade, principalmente no caso de alunos da ECA, FE e FFLCH, unidades à caminho de uma franca decadência política e econômica, em especial por formar professores, função cada vez mais odiada.

À parte isso, a “grande” imprensa tenta jogar com tudo contra a instituição que veem cindida, mas preferem acusar de outro modo, afinal, como destruí-la? Nada melhor do que aplicar o que já fez Sarkozy, isto é, a Universidade deve buscar seu financiamento, o que levará ao provável projeto de sucateamento, com corte de verbas e aí: nova mobilização. E se as pessoas se mobilizarem, o que serão? Óbvio, grupelhos radicais. A culpa será sempre de quem se mobiliza. Assim, o culpado faz a vítima pensar que ela é a responsável pela violência que sofre, seja lá de onde ela parta, apenas porque luta contra sua condição de vítima. No fim das contas sobra uma inversão perversa: você é culpado por recusar a realidade dos jornais impressos e eletrônicos, por permanecer acordado quando o queremos dormente.

Se a greve perde sua força, se os professores se mostram quase totalmente pautados pela imprensa (Cadê a autonomia intelectual? Bobagem pensar que esta preservada quando os meios materiais mudam), e mais, se algo daquilo que já foi uma comunidade universitária está a tal ponto anestesiado, que qualquer progressista que não queira a polícia militar no campus venha a se  manifestar, ninguém o defenderá, mesmo sendo ele tachado do que quer que seja, como a diretora Sandra Nitrini, chamada de comunista, ou a FFLCH de faculdade vermelha. Vermelha a FFLCH ? Quiçá  fosse.

Tal tendência apelativa fora de circunstância levou professores a tentarem isolar grupos de opinião e debate, assim como grupospsdb políticos, então isolaram como grupelho a assembléia de cada uma das categorias, depois as entidades e os grupos políticos em que se compõem os estudantes. Ora, isto não viria igualmente de um grupelho? O PSDB na USP é o quê? E institucionalmente o CO ?

Depois da constatação de que a USP é uma desgraça com a centralização de poder, depois das mostras e acenos de mudanças com ampliação do grupo de poderosos mandatários titulares de 0,8% para 1,1%, caso se estenda às congregações a decisão de escolha de reitoráveis, o que se constata não seria uma cisma entre os próprios mandachuvas da USP?

Para a Folha, não, pois caso se acene uma mudança na estrutura de poder da USP, esta já assinala a ameaça: se houver mudanças na USP, haverá corte de verbas, eis o anúncio do governo, o que inclui, obviamente a parte destes que mandam no CO. Sabe-se lá se ameaça ou golpe preventivo, o fato é que está dado o aviso – não esquecer que a Folha tem forte ligação com José Serra –, se fosse uma perspectiva a ser emplacada inevitavelmente, já seria dada.

Talvez o aceno seja dado ao programa de seu candidato preferido, já que todos os reitoráveis aparecem prometendo mais democracia, Logo_Fiamenos um que começou a campanha. João Grandino Rodas chamou o apoio de Diná da faculdade de Enfermagem, Marcos Boulos da Faculdade de Medicina, do atual prefeito Massola, da coordenadora do quadrilátero, do José Agenor, do superintendente do HC, José Manoel Teixeira, e da Faculdade de Saúde Pública através de Helena Ribeiro, além, é claro, de Flávio Fava da Fundação da Faculdade de Medicina. Ah, importante, não podemos esquecer do Ronaldo Penna (Investigador de Polícia responsável por coordenar a segurança na USP), que um dia após o fechamento da FD, esteve almoçando com Rodas. Estes mostrarão o que é uma faculdade que capta recursos externos, com alunos que poderão ajudar a captá-los, tudo é claro, apoiado na influência que possuem em empresas e no governo, na qualidade de verbas não regulares, fundações e outros. Obviamente não esquecerão daquele que ajudou, quando presidente do CADE, a abrir o capital dessas empresas como corporações junto, é claro, dos poderosos irmãos Marrey.

Entretanto, tudo isso já está em curso e mudanças ideológicas se refletem em mudanças administrativas, e da forma como as decisõeslogo_fapesp sobre a universidade passaram a ser tomadas, como nos institutos que já se apoiam em verba estadual, mas que também captam verbas por projetos e de empresas através de fundações, separando os institutos, creio que muitas faculdades também desistiram de fazer parte da USP. Principalmente se as poucas instituições que prezavam um projeto conjunto, como a FFLCH, foram limadas. No passado, mesmo que não tivesse voz, ela ao menos era ouvida, agora, todos participam do lançamento de pedras, muitas vêm de dentro da própria Unidade.

Isto é um processo já em curso, e parte disto passa pela descentralização administrativa e pelo fim do plano diretor, onde a USP está loteada em áreas particulares que não dizem respeito a um projeto único.

Estas são hipóteses aventadas ao que pode estar sendo indicado pela Folha neste editorial, onde cada manifestação será considerada de grupelhos, o que mostrou funcionar para isolar as pessoas, e prontamente atacada.

Por Universidade para quem?

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