A falta de espaço público para o debate político de fato dá lugar cada dia mais à legitimação do oposto: quanto mais superficial e facilmente penetrável pelas ondas da TV ou páginas do jornal, melhor.

É dessa maneira que jornais de grande circulação aparentam duvidar da inteligência de seus leitores ao apresentar editoriais dignos de tristeza, mas infelizmente, como são de grande circulação, não devem passar sem a devida crítica atenta. A começar por usarem termos como “na realidade” para embasarem o que não necessariamente (e não é mesmo) real, mas sim a verdade por eles construída e amplamente divulgada.

Em O Estado de S. Paulo de 28 de junho (“O fracasso da greve na USP“), o editorial atacou de repórter e apresentou dados como se o autor estivesse ido a campo investigar. Pena saber que nem ele foi, nem ninguém que tenha ido lhe passou as informações corretas, o que faz com que uma crítica de argumentos – ao que se propunha este artigo – se transforme em uma mostra de correção de erros factuais lamentáveis, principalmente para um jornal que se apresenta como arauto da sociedade.

O jornal aponta o baixo quorum de alguns atos e manifestações como sinalizador da ausência de legitimidade do movimento. Por esquecimento ou conveniência omite os que tiveram número expressivamente maior dos que escolheu. Porque não falar dos milhares nas ruas nos grandes atos que reuniram as categorias de trabalhadores e estudantes das universidades estaduais paulistas?

Sendo assim, se formos tomar a legitimidade de qualquer ato pelo número de participantes, o movimento “Cansei” ou mesmo as passeatas antigreve na USP, seriam dos mais ilegítimos e desprezíveis. Mesmo assim, o jornalão dos Mesquita os tratou como verdadeira expressão das maiorias silenciosas, sem jamais colocar em questão o número pífio de manifestantes. Desse modo, vemos como que o critério de legitimidade do Estadão está baseado não em fatos ou acontecimentos, mas sim em que interesses de que grupos são defendidos nas distintas manifestações. De outro modo, pela maneira como dá a entender o jornal, legítimo é somente a vontade das maiorias. Além de uma derrapada, isso expressa a parcialidade do jornal, afinal, no caso do “Cansei”, se tomarmos por base pesquisas de institutos que eles reputam sérios, o movimento seria da mais evidente ilegitimidade face aos 80% de aprovação do governo Lula. 

Mais, a linha de raciocínio deixa entrever algo de totalitarismo, já que apenas as maiorias seriam legítimas. Ora, um dos princípios básicos da democracia é a defesa das minorias, posto que seus anseios são legítimos e descartá-los tout court faz dela o seu oposto. 

Fechando essa questão de legitimidade e número de manifestantes, vejamos anedota propiciada pelo  mesmo editorial. Lá está escrito que no ato na Assembléia Legislativa só compareceram 20 pessoas ao comício. Se tivessem cobrido mesmo, saberiam que o ato era dentro e não fora, e se cobriram esqueceram de entrar na AL, por isso computaram só 20 pessoas.

Mas não pára por aqui. Em poucas linhas, o Estadão consegue ser prenhe de exemplos de mau jornalismo. Diz, por exemplo, depois de muito malabarismo retórico que “Democratizar a Universidade” é apenas um pretexto para substituir o princípio do mérito pelo “participacionismo” e pelo corporativismo. Se fosse antes um jornal que um partido, destacariam repórteres para entender de quê democracia os grevistas falam e defendem, ao invés de, por preguiça e conveniência, apenas emitir opinião em editorial sem antes buscar o que é factual. 

Esse editorial não apresenta, por exemplo, que o tal “corporativismo” citado já existe na USP e parte exatamente das esferas de poder da Universidade, onde professores que chegam a postos de comando, estão lá por habilidade política e não por mérito acadêmico. Sobre este assunto, esmiuçamos melhor a estrutura de poder na USP em texto publicado neste blog (clique aqui para ler). 

Quanto às demandas dos funcionários da USP, em instante algum o jornal teve o cuidado de averiguar sob quais condições trabalham, muito menos as inúmeras tentativas de diálogo, negadas pela Reitoria, antes de se partir para a greve. Simplesmente condenam a greve sem ir fundo nas suas razões.

Sobre a Univesp, tanto O Estado quanto outros órgão da “grande” imprensa insistem em dizer que somos contra a inclusão que estaria proposta no projeto. A chave é outra: Somos contra o projeto, não à inclusão. Não se trata aqui de negar a importância dos recursos tecnológicos do ensino à distância na busca por democratizar o acesso à universidade. Mas reconhecer que tal recurso tem grandes limitações, principalmente se utilizado não como complemento, mas sim como remendo para a falta de vagas presenciais. (sobre este tema, leia mais clicando aqui e também no blog sobre a Univesp, clicando aqui)

Talvez o Estadão em sua inequívoca decadência e vendas em declínio, como todos os jornalões brasileiros, sonhe com tempos idos e busque algum alento no mito da criação da USP. Mito que é uma farsa, afinal a USP foi na sua fundação produto da oligarquia paulista. Armando de Salles Oliveira, à época acionista de O Estado de São Paulo, junto com Júlio de Mesquita Filho, capitanearam sua fundação. Este preconizava o espírito liberal na organização da Universidade. No entanto, isso nunca passou de um mito, como bem nos lembra Irene Cardoso em seu livro A Universidade da Comunhão Paulista, uma vez que até hoje “escamoteia-se que foi criada sob a ditadura de Vargas, quando Armando de Salles Oliveira era interventor federal em São Paulo[…] Omite-se também que quando da implantação da Universidade, e imediatamente após, durante seus primeiros passos, os liberais estavam no auge do seu empenho anticomunista, fazendo aliança com os setores mais intransigentemente reacionários […] E omite-se, que é o que mais interessa no caso, que durante esta época, da implantação e primeiros passos da Universidade, os liberais postaram-se contra a liberdade de pensamento e expressão, apontando para a necessidade de fiscalizar o que se ensinava nas universidades e escolas secundárias, o que publicavam os jornais e o que se editava em livros e revistas” (CARDOSO, Irene. A Universidade da Comunhão Paulista. S. Paulo: Cortez Editora, 1982, pp. 17-18).

Por fim, cumpre-nos lembrar que o Estado como todo a “grande” imprensa deste país, não faz jornalismo, mas militância, defendendo interesse das elites e do grande capital. E por isso parece coerente o Governo de São Paulo haver assinado, sem licitação, exemplares do Estadão e da Folha para toda a rede pública de ensino. Um dinheiro bem vindo para salvar vendas em queda vertiginosa. Ajuda providencial do candidato que apoiam para 2010.

Por Universidade para quem?

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