Publicamos abaixo texto sobre a ação da Polícia no começo deste mês. O tom é um tanto emocionado, tendo em visto ter sido escrito sob o calor do momento e a indignação com a infâmia das balas, bombas e pancadas sobre estudantes, funcionários e professores. Apesar de distante dos acontecimentos, traz mais elementos para refletirmos sobre a Universidade que temos e a que queremos.

Uma perdida reflexão(?) sobre a situação da USP

Originalmente publicado em: http://2009uspgreve.livejournal.com/8687.html

Hoje, sexta-feira desse longo feriado, ainda me sinto desorientado com os acontecimentos dessa ultima terça, dia 9, na USP.

Porra, a ação da força tática mexeu com os brios. E não só os meus. Sinto que a gente tá com muito ódio. Ódio pra caralho. Um ódio que já vinha acumulado há algum tempo.

As conversas sobre o que tá rolando, o que fazer, me parecem caminhar pruma saída não-tradicional, aquela da negociação, do ganha de um lado, cede do outro…a lógica das vitórias e derrotas, que depois serão vendidas como mercadorias para as futuras mobilizações.

Quem sabe caminhemos para uma inexistência de saída.

Porque, para muitos, começa a ficar claro, em meio as imagens esfumaçadas provocadas pelas bombas, que a questão não é só Fora Suely, Fora PM, Fora Univesp, por aumento dos salários.

A ação da PM é inaceitável em qualquer lugar do mundo. E terça-feira, o mundo entrou na USP. Demora, mas acontece. Os caras varreram a gente, choveu bomba, não perdoaram ninguém. Quando eles começam a operação, não param. Até a Suely iria apanhar se porventura tivesse saído do seu bunker, com porta eletrônica e tudo, para impedi-los, do alto da sua autoridade…

Uma das coisas que mais me incomodam nesse momento tenso é o fato de grande parte da comunidade acadêmica não se posicionar ou achar normal e, muitas vezes, defender a ação da PM, a posição da reitoria.

Fico me perguntando se é possível convencermos esse tipo de aluno e professores de que há algo de podre no mundo encantado da universidade. Acho que eles não estão dispostos a dialogar. A USP gosta do Kassab e do Serra. E a gente sabe muito bem o que esses caras querem pra universidade, pra cidade, pro estado, pro Brasil e pro mundo. E para aqueles que pensam diferente deles.


Andando conta o vento
vou vivendo o clima tenso

(Racionais mc’s)

Quando vejo estudantes do meu curso de História chamando a polícia com a justificativa de que as barricadas impedem seu sagrado direito de ir e vir; quando eu vejo professores ridicularizando os alunos quando esses passam em sala de aula querendo paralisar as sagradas aulas por um dia para se discutir, refletir sobre os problemas da universidade; quando eu vejo que alunos se organizam, para as 7h da manhã, agir de maneira sorrateira, desmontando as barricadas, eu penso que não estamos lidando com gente da comunidade acadêmica, com pessoas. Mas que estamos lidando com ratos (os roedores que me perdoem). Esses ratos se recusam a discutir no espaço público. Criticam as assembléias (como se elas fossem ruins só pra eles), mas se furtam a qualquer tipo de debate. Fico pensando…quantos estudantes já viram ou ouviram a Suely Vilela. Será que ela já pisou alguma vez no prédio da história/geografia? Aquele mesmo que foi cercado e bombardeado na última terça? A reitoria jamais esteve disposta ao diálogo, jamais propôs diálogo sobre as questões, projetos da universidade. Basta lembrar que a ocupação de 2007 foi motivada pelo fato da Suely ter dado mais um bolo no debate sobre os decretos do Serra, sem nem sequer enviar representante algum para discutir com alunos e professores. Ela não se posicionava sobre os decretos. Passou a ocupação sem se posicionar. Bom, na verdade é porque ela já tinha posição, mas se recusou a apresentá-la publicamente. Ela, assim como muitos alunos e professores, caga e anda pro espaço público, pro debate público. Ela gosta é de agir na surdina, ela gosta é de botar a tropa de choque pra mediar as relações na universidade. Isso é inaceitável. E não só na USP.

Ratos.

É esse o tipo de gente que domina cada canto da universidade.

Existe alguma negociação possível com essa corja? Existe diálogo possível com esse tipo de estudante e professor? Com os funcionários do alto escalão, que ficam ligando na casa dos seus subordinados, constangendo-os, ameaçando-os?

Na USP o que existe é uma diferença clara de posicionamentos sobre o papel da universidade. E elas devem ser aprofundadas, até que não seja mais possível convivência entre essas diferenças. Os acontecimentos das últimas semanas, o ódio acumulado que foi desengatilhado pelo explodir das bombas, podem contribuir para isso.

Mas será que o fora Suely, Fora PM e por uma USP democrática é o suficiente? Ou não seria o mínimo? Diretas já, seja pra reitor, seja pras chefias do departamento, seja pro CO vão resolver os enormes problemas da USP? A solução seria mesmo eleições, uma USP vitaminada pelo modelo da democracia burguesa?

O momento é de se questionar o vestibular. Questionar o tipo de aluno que entra na Universidade. Contestar veementemente o tipo de formação aqui construída. Contestar o tipo de docente que entra. Eu não quero só defender mais professores pro meu curso. Eu quero decidir que professor fará parte do departamento. Quero que haja uma pressão para que questionemos a merda da CAPES, CNPQ E FAPESP. A política de bolsas. A política de permanência estudantil. A produção do conhecimento.

Pois a pauta colocada, beleza, ela vai andar. Nós avançaremos até deixar a situação da reitora insustentável. Aí quando ela cair, nós já sabemos o script. Quem estará lá nas mesas de negociação, dividindo, reconstruído ou reproduzindo as relações de poder na universidade… Deixa quem gosta de fazer isso se divertir…os partidos, por exemplo, tão aí pra isso…

É preciso aproveitar o momento para irmos muito além. Aproveitar a falta da normalidade para estudarmos aquilo que não se estuda, pra nos relacionarmos do jeito que a universidade, no sentido em que caminha, nos interdita cada vez mais (Que nos diga a UNIVESP e o seu relacionamento virtual). Pra tomarmos conta dos seus espaços como eles nunca foram tomados. Agir de uma tal maneira que as ditas lideranças se sintam incomodadas, que elas saibam que só lutar por uma democracia na USP, pela autonomia universitária (o que nunca existiu), por uma universidade pública, gratuita e de qualidade é insuficiente e vazio.

É hora de parar de defender a universidade pública e atacar. Nem que para isso, no limite, a USP seja destruída.

Melhor do que ficar sob as patas desses ratos.

Por Luis, Estudante

Originalmente publicado em: http://2009uspgreve.livejournal.com/8687.html
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