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Fora Suely não deveria ser apenas pela Reitora ter se submetido à vontade de José Serra ao chamar a Polícia para dentro do campus, mas também pelos desmandos que caracterizam sua gestão. Centralismo, incompetência, autoritarismo e até mesmo desrespeito ao conservador Estatuto da Universidade – como já observado nas votações irregulares de dois CO’s – trazem as digitais de Suely Vilela. E tudo isso só é possível porque somos a mais antidemocrática das universidade públicas do país, apenas isso bastaria para o “Fora Suely”, não por ela, mas por ser a expressão maior da concentração de poder excessiva na mão de poucos, pouquíssimos. 

Fava: presidente da FFM e ex-reitor da USP

Fava: presidente da FFM e ex-reitor da USP

Dizer que a Universidade está sendo privatizado por dentro virou chavão, ainda que de fato esteja, indo desde os inofensivos grupos de pesquisa (não todos, mas parte expressiva), donde determinados professores transformaram-se em microempresários dentro da Universidade, até os grandes projetos ligados à iniciativa privada, sem qualquer conexão com a realidade cultural e social do país. Mas, voltemos um tanto mais para dentro, particularizando alguns aspectos e vejamos os gastos mensais da USP, para pensarmos no que ela se tornou, em milhões:

logo_evik43,2  para Vigilância: afinal terceirização e transformação da guarda universitária de um tipo de Guarda Municipal para um tipo de polícia de inteligência em torno do investigador de polícia Ronaldo Penna, da GESP (Gestão Eletrônica de Segurança Privada) que investiga os militantes da USP e contratos milionários com a empresa EVIK, do próprio Penna, e a Global custam muito caro;

47,3 para serviços de utilidade pública (não se sabe o que são, uma vez que estão sob a rubrica “extensão” e isto hoje na USP são cursos pagos);

15 para restaurantes, terceirizados principalmente;

35,6 Limpeza , basicamente terceirizados;

13,2 Hospitais;

3,9 Museus, que recentemente foram, numa canetada mágica, tirados da USP e passados para a Secretaria de Cultura.
E, preparem-se, afinal, porque se dependemos tanto das agências financiadoras para a pesquisa, muito erroneamente achamos que o dinheiro da USP vai para a pesquisa e não para o ensino, não? Então aí vai: 3,2 para pesquisa e 8,2 para Ensino.

Tudo o que se seguiu são dados tirados do site da USP. Foram citados na Assembléia da Adusp por um professor de direito público da USP Leste, os critérios são bem reveladores.

Pensemos na pressão que isto exerce sobre a pesquisa e no ensino, e outros, obras.

Entremos agora pela seara da terceirização.

Por que a USP vive com os jardins destruídos?

Por que de 220 trabalhadores neste setor, baixou-se para 40?

Por que as obras e consertos demoram tanto? Por que de 210 funcionários do setor de manutenção, restaram apenas 34?

E eletricistas de alta tensão, de 75 para 15?

E ar condicionado, de 15 para 5, 4 se tirarmos o Brandão?

Serviços gerais, a mesma história.

A USP está o caos e é, propositadamente, levada à ultraexploração dos trabalhadores cuja única solução, segundo a cantilena neoliberal, por coincidência é a terceirização!

E mais, a terceirização coloca um valor para o intermediário, tira os direitos dos trabalhadores, fragiliza, expõe ao deslocamento, falta de EPI (Equipamento de Proteção Individual), como nós mesmos vimos outro dia um homem trabalhando na britadeira sem protetor auricular, que, segundo ele, a empresa não havia dado. E se a empresa é multada, a USP paga!

A instabilidade no emprego leva o trabalhador à completa insegurança, ao desenraizamento com o local de trabalho, e a perda de poder de reivindicação. Tornam-se invisíveis e sequer são conhecidos pelo nome.O corpo é consumido como matéria prima junto com o trabalho, assim o trabalho permanece constante à custa da mudança de diversos trabalhadores, que se revezam neste tipo de exploração. Talvez seja este o sonho do tecnocrata: bandejão, segurança e limpeza funcionando sem parar sob nenhuma hipótese, sem que ele se importe com o quanto custa isso e o porquê se fazem greves.

As empresas terceirizadas na USP normalmente são de professores, que possuem laranjas e outras empresas de fachada. Quando uma ganha, entra para um dado projeto e em seguida para, às vezes entra em “falência” ou desaparece sob um nome fantasia qualquer, como uma empresa que procuraram e descobriram que o endereço era um “muquifo” em Goiânia. Quando isso ocorre deve-se entrar na justiça, pois se a USP passasse à outra empresa, interferiria no capital da que já foi contratada, prejudicando-a. Então, passa-se para outra licitação, onde outra empresa ganha e … surpresa, tudo leva a crer ser do mesmo dono, mas com outro nome.

A terceirização, sonho da tecnocracia antigreve, facilita como nada o escamoteamento e a fraude, além do não pagamento de direitos. Talvez por isso o Sintusp não ataque tanto os seguranças da Evik (aquela empresa que garante três fontes de renda ao Ronaldo Penna: responsável pela segurança na USP, investigador de polícia e sócio da Evik), pois trabalham 12h por dia ou como um funcionário dela, vigia de uma obra, homem de 60 anos, que se machucou nos escombros daquele monumento à inutilidade ao lado do IO, e a empresa não o paga desde o afastamento. Aliás, se o funcionário é afastado por licença médica, não recebe nenhum benefício, ou mesmo, em muitos casos, salário.

Praça do Relógio

Praça do Relógio

Descentralização administrativa. A USP passa pela privatização ideológica. Com o fim da Prefeitura do Campus, ela não funciona mais como Cidade Universitária. E o que isto quer dizer? Quer dizer que ela não tem um plano diretor, uma idéia de conjunto, mesmo abstrata do que seja a USP. Na prática, a briga recente que tivemos de espaços como poder, refletia-se entre burocratas das faculdades e diretores, pois, para ganhar prestígio colocavam-se novos projetos de obras que expandissem unidades e visassem capital político. Para tanto lutavam entre si, unidade contra unidade em busca de espaço, loteando a USP em áreas das faculdades e institutos a partir da força política que as unidades vizinhas tivessem. Deste modo, colocam-se obras que nunca terminam, refletindo projetos que nunca terminam.

Um outro setor dos mais enxugados da USP e que mais participa da greve entre funcionários é a COESF, a Coordenadoria de Espaços Físicos. Por quê? Porque não conseguem mais dar conta de tantos projetos de diretores que têm capital político no C.O. e junto à Reitoria. Obras, obras, obras sem projeto, por exemplo: se a unidade tem um projeto para os próximos anos, decidindo expandir o ensino, quer dizer que expandirá em salas de aulas, logo, projetos neste sentido serão executados. Do mesmo modo, se uma unidade decide expandir em pesquisa, serão construídos laboratórios. No entanto, isso vêm sendo feito sem nenhum critério acadêmico relevante. Na maioria das vezes o que existe é a disputa amparada no prestígio, cujo reflexo prático é o caos. Outrossim, áreas que não são lotes de unidades e faculdades são terras de ninguém na USP, sujeitas a projetos malucos, todos terceirizados, como a recente reforma paisagística com direito a palmeirinhas e pedrinhas brancas para ornar o entorno das câmeras de vigilância. O embelezamento é a coisa mais importante, se olharmos atentamente para os gastos da Reitoria. A COESF, no meio disso, não dá mais conta sequer dos projetos, o que os coloca nas mãos de empresas terceirizadas. Um projeto de unidade de pesquisa especializada custa milhões, contra apenas o salário dos engenheiros especialistas em diversas áreas da COESF, sobra a eles corrigir defeitos com o número irrisório de técnicos que ainda possui.

Como, por exemplo, evitar que um projeto recomendado por uma unidade junto à reitoria misture os esgotos doméstico e de contaminação biológica, buscando evitar um desastre ecológico, afinal, uma universidade é um perigo tecnológico constante.

No entanto, hoje são tantos projetos que nem a fiscalização o COESF dá conta, ocorrendo então a fiscalização terceirizada de obras como a que ocorreu na USP São Carlos, onde caiu a viga de um laboratório, condenando àquela obra.

CO que elegeu Vilela

CO que elegeu Vilela

A USP está em crise nas mãos de burocratas inescrupulosos que centralizam o poder em suas mãos, mas que não desejam se submeter minimamente a um projeto público onde prestem contas das criações que fazem. A falta de democracia não redunda tão somente em corrupção. Ela pode levar a um desastre iminente.

Fizemos apenas um recorte dos problemas uspianos, há outros, talvez até mais sérios. Por isso afirmamos que o “Fora Suely”(*) não pode e não deve se restringir à atual Reitora. Ela é a face mais visível de um sistema que corrói os princípios norteadores de uma universidade, ainda mais quando pública. “Fora Suely” não pode ser motivado pela comoção de momento provocada por balas de borracha, bombas de lacrimogêneo e de concussão, ou simples moeda de troca traduzida em percentuais, abonos etc., mas o princípio da luta efetiva pela democratização da Universidade, do exercício pleno da sua autonomia. Se esta Universidade não for democratizada, enquanto existir professor, funcionário e estudante dotado de consciência, dignidade e preocupação sincera com a coisa pública, crises haverá na USP. Se nada mudar e vier a paz dos cemitérios: significará não mais existir Universidade pública.  

Por Universidade para quem? 

(*) Queremos crer que o artigo (clique aqui para ler) do professor Flávio Aguiar, tendo em vista sua história, é da mais pura ingenuidade (alô professor, pedimos permissão para discordar do senhor…). Afinal, dar a entender que devemos apoiar a manutenção da professora Suely Vilela no cargo, fortalecendo indiretamente o Lajolo, implica nalguma influência nas esferas de poder em contraposição aos setores mais conservadores, deve ser ingenuidade. Sim, nos metemos todos neste atoleiro, mas achar que reitora vai nos tirar dele… (Pela Virgem de Aparecida!). O simples fato de ela ter vencido, em 2005, setores ligados à FEA e Direito, com o apoio de outros mais avançados, não a credencia ad infinitum a estar do lado de cá (se é que algum dia esteve), ou quantas vezes a PM precisará entrar no campus para que o professor Aguiar entenda de que lado alguns  dos “amigos”(sic) que cita estão? Não é preciso olhar de águia para encontrar tucanos empoleirados pela USP.
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