17Posidon%20%5B640x480%5DO professor dr. Leônidas Posêidon estava sentado à sua escrivaninha e fazia contas. A administração de todas as pesquisas do projeto temático águas pago por agências financiadoras, além das disciplinas de pós, palestras, consultorias, da Fundação Hydros, dos encargos burocráticos e administrativos da Universidade, além de entrevistas, davam-lhe  trabalho interminável. Poderia ter quantos auxiliares e bolsistas quisesse, possuía muitos, diga-se de passagem; mas, uma vez que levava muito a sério seu ofício, revia pela enésima vez tudo e, sendo assim, os auxiliares ajudavam-no a preencher infindáveis relatórios CAPES e CNPq, enquanto os bolsistas fugiam de sua alçada com seus interesses diminutos. Não se pode dizer que o trabalho o alegrasse; na verdade ele o realizava só porque lhe fora imposto; já havia solicitado muitas vezes tarefas mais prazerosas, conforme se expressava; mas, sempre que faziam propostas diferentes, era manifesto que nada o agradava tanto quanto o cargo que até então ocupara. Era muito difícil, além disso, encontrar outra coisa para ele. Com efeito, era-lhe impossível atribuir algo como um determinado tema ou subprojeto; sem mencionar que, neste caso, o trabalho de calcular não seria apenas maior, mas também mesquinho. O grande professor dr. Leônidas Posêidon só podia receber um posto em que fosse dominante, no mínimo, coordenador. E, se lhe ofereciam um ofício fora do tema água, sentia-se mal com a idéia: seu alento divino se descontrolava, o impecável avental  engomava.

De resto, não levavam realmente a sério as queixas que fazia; quando um poderoso importunava-o, é preciso dar a impressão de tentar ceder mesmo nas questões mais sem perspectiva: ninguém pensava em remover de fato o professor dr. Posêidon do seu posto; desde o início mais remoto tinha sido destinado a ser o principal especialista em todos os mares e assim devia permanecer.

O que mais o irritava – e essa era a causa principal de sua insatisfação com o cargo – era escutar as imagens que faziam dele como, por exemplo, ele navegando a pesquisar diligentemente de modo concentrado e desalinhado em meio às ondas. Enquanto isso o professor dr. Posêidon estava sentado em sua escrivaninha ao lado do Rio Pinheiros, muito distante dos mares do mundo, fazendo contas ininterruptamente; de vez em quando uma descida à Reitoria para resolver problemas com o sistema Júpiter e pautas do C.U.(sic) eram as únicas quebras de monotonia – passeio, por sinal, de que ele na maioria das vezes voltava furioso.

Assim é que mal tinha visto os mares: só fugazmente, durante a célere pesquisa no laboratório instalado no Litoral que garantiu sua ascensão ao topo da carreira (como Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1A), sem nunca o ter efetivamente atravessado. Costumava dizer que ia esperar o fim da Universidade quando fosse  privatizada de uma vez por todas, aí então se produziria com certeza um segundo de tranquilidade, no qual ele, bem próximo ao fim, depois de revisar o último relatório de produtividade para as agências e para a CERT, poderia ainda dar, rapidamente, um pequeno giro por tudo em meio às ruínas.

Por Aliado D.

Publicado originalmente em: http://forumdaocupacao.over-blog.com/article-17677322.html
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