Assim como no Brasil, a França tem vivido turbulências no âmbito das universidades e greves para resistir a reforma universitária de Sarkozy. Lá como cá a palavra de ordem do governo é uma só: mercantilazação do ensino, conforme o leitor poderá observar no relato que publicamos a seguir:

Enquanto isso, em Paris (saindo um pouco da música)

Por Marlon Miguel

Em:http://oglobo.globo.com/blogs/antonio/post.asp?t=enquanto-isso-em-paris-saindo-um-pouco-da-musica&cod_post=194653 

O ano letivo de 2008-2009 foi marcado por fortes turbulências no meio universitário francês. Quarenta anos depois de 1968, uma verdadeira crise afeta as universidades francesas e o segundo semestre do ano letivo (de fevereiro a junho) permaneceu quase todo paralisado. Mas o que de fato está acontecendo?

As greves aqui na França são uma resposta ao movimento de reforma universitária. Essa história começa entretanto em 1999, quando 29 países europeus assinaram a chamada “Declaração de Bolonha”. Um acordo que por um lado previa a unificação do sistema de ensino superior na Europa e por outro se assumia também como “modernizador” do ensino universitário. A dita modernização é em realidade uma autonomização da Universidade em relação ao Estado, aumento das taxas de inscrição e mercantilização do ensino – a universidade deve ser uma empresa rentável como uma outra qualquer e em alguns casos sua gestão pode estar ligada a empresas privadas. Desde então muitas manifestações em diversos países da Europa vêm ocorrendo, mas sem muito sucesso. Boa parte das universidades na Itália e na Alemanha já estão seguindo esse modelo e se privatizando e outros países, como a França e a Espanha, intensificaram o processo nos últimos dois anos.

Em declaração recente, o presidente francês Sarkozy afirmou que “todos devem ter direito a estudar latim se quiserem, mas não podem exigir que o Estado banque esse ‘luxo’”. O exemplo do latim obviamente se estende a quase todas às ciências humanas e mesmo à parte das ditas “ciências duras”. Em resumo, tudo aquilo que não é ciência aplicada, que não tem utilização prática imediata é considerado luxo e não deve ser bancado pelo Estado.

Desde 2007 a França lançou a lei intitulada LRU (“Loi relative aux libertés et responsabilités des universités”). A lei concede total autonomia às universidades em relação ao controle do dinheiro e dos recursos humanos. Em resumo: o Estado está tirando seu time de campo e deixando a educação nas mãos de uma lógica capitalista privada. Obviamente quem sai perdendo com isso são as Ciências Humanas, visto que do ponto de vista prático sua importância não é imediata – qual a aplicação financeira de uma pesquisa em Walter Benjamin? Mas o absurdo vai ainda mais longe: o governo pretende a médio-prazo parar de investir em grandes centros de pesquisa, o que seria, em resumo, o fim dessas instituições. É o caso do CIPH (College Internationale de Philosophie) ou das bolsas e dos salários na ENS (École Normale Supérieure). Entre outras propostas, haveria ainda o fim do ano de bolsa concedido a jovens formandos, que funciona como um estágio pedagógico para novos professores – algo como nossa “licenciatura” – e o deslocamento de todas as universidades do centro de Paris para a periferia. Sobre este último ponto, o argumento oficial seria a concentração de estudantes, professores e pesquisadores em um pólo universitário. Na realidade, trata-se da expulsão de estudantes e professores, esses “baderneiros inúteis”, do centro de Paris. Mais uma medida repressora do que qualquer outra coisa, visto que em termos produtivos, de trabalho, os estudantes se distanciam ainda mais de bibliotecas, museus, laboratórios, que se encontram no centro parisiense.

Em função dessa agenda de supressão do pensamento, as greves se intensificaram bastante desde fim de janeiro. O movimento estudantil, fortemente apoiado pelos professores, se uniu a outros movimentos nas duas grandes greves gerais que ocorreram esse ano. Porém, a cada vez que esse movimento se intensificava, a polícia chegava para impedir qualquer tipo de manifestação. Nos anos 1940, a França de Vichy criou uma polícia especial chamada CRS (“Compagnie Républicaine de Sécurité”) com o objetivo de combater revoltas e manifestações. Ou seja, são os encarregados da “manutenção da ordem”. No maio de 68 em várias manifestações se viam faixas dizendo “CRS = SS”.

Os CRS estão autorizados a se valer de força física, andam sempre em grupos enormes (é muito comum em manifestações pequenas chegarem cinco vezes mais CRS que manifestantes, utilizando cassetetes, escudos, bombas de gás lacrimogêneo, que estão cada vez mais fortes, armas com balas de borracha, etc…). Ou seja, eles agem normalmente por ostentação de força e poder, com equipamentos para impressionar, mas também pelo uso da violência – violência autorizada e oficializada. Em cada uma das manifestações, mesmo as mais pacíficas, assistimos a um número absurdo de CRS chegando em ônibus e caminhões para “estabelecer a ordem”.

Mas a questão possui ainda um outro fator complicador: a ausência de pronunciamento dos meios midiáticos sobre as reformas, as manifestações estudantis e a repressão da polícia. Nas duas greve gerais, programadas com antecedência, as manifestações foram mais ou menos pacíficas. Porém, assim que as multidões começaram a se dispersar, restando apenas estudantes, viu-se mais uma vez a intervenção dos CRS a fim de dispersar à força esses últimos. Os jornais noticiaram obviamente a greve, mais nem uma única palavra sobre a repressão contra os estudantes. Em cada uma das manifestações, sempre reprimidas rapidamente, silêncio total por parte das mídias. O governo, também silencioso, deu continuidade ao processo de implementação da LRU. Trata-se de uma estratégia simples: o Estado, detentor do poder, conta com o cansaço dos grevistas, espera pelas longas férias de verão, manipula as mídias, de forma que as informações não vazem para fora dos meio estudantis, e assim pode seguir com suas reformas “modernizadoras”.

E a estratégia parece ter dado certo. Perto do fim do ano, professores e um grupo considerável de alunos com medo da anulação do ano letivo puseram fim às greves e começaram as avaliações semestrais. O governo conservador conseguiu o que queria. Universidades como a Sorbonne, por exemplo, que viram uma ocupação policial durante todo o semestre, começaram a voltar à normalidade, alunos e professores voltaram às suas atividades habituais, etc… E a questão resolvida para o Estado, permanece questão-problema para as humanidades.

Tudo isso levanta uma série de problemas. 1. Talvez a falta de radicalidade dos movimentos. Ou as propostas grevistas são levadas à sério e às últimas conseqüências, ou então, além de não funcionarem, esses movimentos acabam sendo mais negativos do que positivos. Pois um semestre e meio em greve só deu força ao argumento de que os estudantes de Ciências Humanas são inúteis – não fizeram nada o semestre inteiro e mesmo assim ainda o validaram no fim. 2. A greve surge como um método já esgotado. A greve hoje em dia tem dia, hora, caminho a seguir, ou seja, não é uma explosão no continuum do calendário. É apenas mais um dia programado e que desse modo não surte o efeito que deveria, do inesperado. 3. Um controle das mídias por parte do governo oficial que se recusa a noticiar o que está acontecendo. A idéia de teoria conspiratória pode parecer um pouco exagerada, mas é fato que há um controle ideológico dos meios de comunicação. 4. Dispersão de forças, falta de comprometimento pessoal e posicionamento das pessoas. Enquanto a situação não for vista como um verdadeiro estado de exceção, e estudantes e professores não levarem à sério seu posicionamento de contra-reforma o processo não vai ser revertido. É preciso que todos reconheçam a gravidade do estado atual e se comprometam deixando um pouco de lado seus interesses pessoais. E definitivamente não foi isso o que aconteceu. No último momento, todos quiseram salvar suas férias, validar seu ano.

Finalmente é preciso compreender que as humanidades não podem ser vistas apenas como um “luxo”, mas possuem o trabalho crítico e reflexivo. Uma das formas mais bem acabadas da estratégia de controle da ditadura militar no Brasil foi a reestruturação total do ensino escolar – fim de disciplinas como a Filosofia, diminuição da carga horária de História, Literatura, e aumento de matérias como Matemática e Química. Resultado: um povo sem educação, sem conhecimento da própria História é um povo manipulável. Além disso, da mesma forma que na ditadura militar os colégios públicos entraram em decadência. Na França, o aumento da matrícula em universidade limitará ainda mais o acesso às universidades. Desse modo, cria-se um círculo vicioso: só os privilegiados estudam, alcançam os melhores cargos e empregos e há uma manutenção da desigualdade social. Essas reformas apontam assim para um sério interesse de classe e manutenção do status quo.

Mesmo assim o movimento estudantil em Paris não foi absolutamente em vão. O surgimento de manifestações criativas já foi um passo. É o caso de aulas dadas por professores em espaços públicos, como em uma estação de metrô; encenações como de um cortejo e enterro do ensino superior dentro na ENS; a marcha das 1000 horas, na qual estudantes, professores e intelectuais desfilaram, dia e noite, durante 1000 horas em frente ao Hôtel de Ville; o abraço coletivo em torno da Sorbonne, dentre muitas outras…; demonstram manifestações inventivas e importantes simbolicamente. Além disso, muitos foram os alunos e os professores que incorporaram essas questões em suas aulas, projetos, textos, pesquisas, conciliando absolutamente a tarefa crítica de pensar o presente com seus interesses pessoais. Mas um tal movimento ainda ficou aquém do necessário, ainda foi muito dentro da ordem e dos padrões estipulados. A única alternativa parece ser a busca por uma radicalidade que esteja disposta a arriscar o rompimento dos valores atuais. Deve a universidade se render à uma lógica produtiva? O valor mercantilista é o único valor real, natural e verdadeiro? Trata-se de uma questão de ordem estrutural, seriíssima, da possibilidade mesma de se pensar um novo modelo de vida. E nesse sentido o engajamento pessoal precisa ser levado às últimas conseqüências: qual vida se quer levar? Esta ou outra? Quanto se pode suportar ao se assumir uma nova via? Questões sem dúvida nada evidentes, mas que refletem uma vontade de não adequação a um modelo vida que tem se afirmado como o único possível. Quando o Estado se recusa a reconhecer como tendo um papel essencial na educação e pretende transformá-la em coisa privada, uma transcendência radical se abre. Uma instituição privada se ergue para além do domínio do cidadão, do povo. E se consideramos o Estado não como algo para além do povo, mas exatamente como a organização do povo, então o ensino como coisa pública está sob controle e interesse do povo mesmo.

Embora trate-se aqui do caso específico da França, as questões se refletem na realidade brasileira. Em São Paulo, na USP, há mais de um mês se vê uma greve e a ocupação da polícia militar no Campus. No Brasil há alguns anos se fala de uma reforma universitária que seguiria esse modelo implantado na Europa. Nesse sentido há uma repercussão das questões. Caso a França aprove finalmente essas leis será o fim de uma era em que os principais países europeus, que foram justamente sempre um modelo alternativo à Inglaterra e aos EUA, sucumbirão à uma lógica de mercado em que todos saem perdendo. É a vida, com todo o seu potencial de diferença e pluralidade, que se enquadra de modo totalitário em uma única possibilidade existente.

 Por Marlon Miguel

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