Email que circula nas listas.

Segue abaixo o texto da resposta à “Carta à comunidade universitária”, que acabo de enviar à sua assinante, a Reitora da USP, professora Suely Vilela.

Mario M. González

Prezada Reitora da Universidade de São Paulo:

Docente aposentado compulsoriamente da USP, sinto-me na obrigação de responder à sua carta. Fundamentalmente porque sou contrário a qualquer violência, particularmente, no caso, àquela que constitui a presença e conseguinte ação da Polícia Militar em nossa Universidade. Estive na Assembléia da Adusp que deliberou pela atual greve e votei a favor desta porque, mesmo que minoritária, considero que é a maneira que cabe de manifestar nossa indignação perante o fato de vermos a USP ocupada pela Polícia Militar como nos tempos da ditadura. Não há como dar aulas nessas circunstâncias.

Considero que se chegou nisso por uma enorme falta de capacidade para o diálogo por parte da Reitora ao longo do seu mandato. Digo isso pelo fato de ter ocupado a chefia do Departamento de Letras Modernas entre março de 2004 e junho de 2007, quando fui aposentado. Ficou claro, para mim, o pouquíssimo caso que, por parte da Reitoria, parecem merecer os Departamentos de Letras, sendo que tenho razões para imaginar que os sucessivos reitores da USP mal conhecem o sentido dos estudos e pesquisas neles desenvolvidos. Esse descaso levou durante anos a que, dentre muitos problemas como a falta de docentes em número adequado, houvesse e crescesse o drama da falta de espaço para gabinetes de docentes e salas de aulas. O prédio de Letras, projetado nos anos 80 (e construído graças à intervenção pública de uma aluna durante a posse do governador Montoro) foi inaugurado pelo reitor Lobo em 1990, mas estava inconcluso então e continua inconcluso até hoje. Quando eu assumi a chefia do DLM, no inicio de 2004, logo mais fiquei sabendo (e comprovei isso ao ver depois por diversas vezes o correspondente processo) que havia uma verba, no montante de um milhão de reais, para a ampliação das salas de aula de Letras, o que amenizaria um problema que chegava às raias do absurdo, com os alunos assistindo às aulas de fora das salas, pelas janelas, numa modalidade bem peculiar de “ensino à distância”. Três anos depois, sequer havia sido colocado um tijolo. Foi quando os alunos tentaram dialogar com a Reitoria da USP, ninguém apareceu para escutá-los e eles reagiram ocupando o prédio da Reitoria. Embora eu, como membro da Congregação da FFLCH, me manifestasse então contra essa ocupação, entendo que só assim foi que, um ano depois, tiveram início as obras de ampliação das salas de aula de Letras. A falta de diálogo gerou a ocupação da Reitoria. E o fato indicou que o único caminho eficaz parecia ser esse. O fato deixou também no ar o medo de uma nova ocupação do prédio da Reitoria, o que na presente greve levou a Reitora a solicitar a “reintegração de posse” que, como a Reitora sabia, significaria a entrada da polícia no campus.

Como já manifestei, sou contrário à violência. Não sou partidário de piquetes com impedimento físico do acesso, embora deva entender que funcionários da Reitoria da USP queiram os piquetes para poder fazer greve, já que se dizem constrangidos ao trabalho pelos seus chefes. Entendo que uma universidade é por excelência o espaço do diálogo. Não cabe aos seus dirigentes negar-se a ele ou interrompê-lo, como foi feito nas atuais circunstâncias, mesmo tendo que enfrentar a violência. Responder com a violência significa detonar um processo que, como estamos comprovando, ninguém sabe onde irá dar.

Os fatos presentes me levam a pensar que a USP precisa ser radicalmente reformada. Não se trata de que a Reitora renuncie ou de que a eleição para reitor seja direta. Trata-se de que a atual universidade, violentamente centralizada, cuja cúpula só não ignora as diferenças quando é para estabelecer absurdos degraus, deve ser radicalmente reformada. Será a única maneira de termos a esperança da garantia de que possa haver verdadeiro diálogo. E de que nunca mais um reitor ou reitora não seja capaz de encontrar outra resposta (mesmo que para responder à violência) a não ser trazer a Polícia Militar (essa herança da ditadura) para dentro do campus.

Atenciosamente,

Prof. Dr. Mario Miguel González

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