Professores do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp), soltaram carta pública (abaixo na íntegra), onde afirmam estar o IFCH agonizando. Isto é sintoma do que vem passando à universidade brasileira e mais dramaticamente as públicas paulistas.

Paulo Renato e José Serra

Paulo Renato e José Serra

A destruição que houve na esfera federal, perpetrada pelo atual secretário da Educação quando era ministro de FHC, Paulo Renato Souza, foi mitigada – carências ainda existem, e não são poucas – de alguma forma nos últimos anos, através da gestão do atual ministro Fernando Haddad. Porém, São Paulo vive quase duas décadas de PSDB no poder, ou seja, estamos perto de completar vinte de anos de violência contra a autonomia universitária, descaso com a educação, desrespeito com o funcionalismo público, além da falta de rumo e política responsável para a área de educação. Sendo assim, não causa espanto docentes da Unicamp declararem que uma se suas mais importantes unidades está em estado de emergência. Quem agoniza não é apenas o IFCH, mas toda a educação do Estado de São Paulo.

O IFCH em estado de emergência 

O IFCH está agonizando. Nos últimos anos, temos encaminhado à Reitoria diversos ofícios justificando pormenorizadamente a necessidade urgente de novas contratações de docentes e nossas demandas não têm sido atendidas. As quatro vagas que recebemos para o ano de 2009 são absolutamente insuficientes para recompor o quadro docente no patamar em que esse se encontrava há 15 anos.

IFCH

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Nos últimos anos, a Graduação e a Pós-Graduação do IFCH experi-mentaram uma expansão de cursos e de vagas discentes sem precedentes. Desde 1994, o número de vagas oferecidas no vestibular pelos cinco cursos de graduação aumentou 28% (de 140 para 180 em 2008) – sem contar as vagas do curso de Arquitetura, criado em 2005 – e o total de alunos matriculados na graduação passou de 707 em 1998 para 1048 em 2008 (um aumento de 48%). No mesmo período os cursos na pós-graduação passaram de 5 mestrados e 4 doutorados para 7 mestrados e 11 doutorados – e o total de alunos matriculados aumentou de 741 em 1998 para 885 em 2008. No mesmo período, entretanto, o número de docentes diminuiu. Éramos 128 docentes em 1994, 101 em 1998, 90 em 2008 – e somos hoje apenas 88.

Isso não significa apenas sobrecarga de trabalho. Certamente há mais cursos a serem dados e mais alunos a serem orientados, mais bancas para participar. Ao mesmo tempo, as demandas por projetos e pareceres cresceram, assim como a pressão para ocupar cargos administrativos e acadêmicos aumentou muito. É lamentável constatar que nossos alunos podem concluir a Graduação ou a Pós-Graduação sem a chance de cursar disciplinas eletivas importantes, simplesmente por falta de professores especialistas para ministrá-las. O vínculo entre as aulas e a experiência de pesquisa, que sempre caracterizou os cursos do IFCH está se perdendo: diante da necessidade de cobrir a oferta de disciplinas obrigatórias, muitos de nossos professores não têm mais a oportunidade de oferecer disciplinas nas áreas em que atuam e publicam – e nas quais são nacional e internacionalmente reconhecidos. Nesse quadro é praticamente impossível pensar em criar novas disciplinas na graduação, mesmo as que têm sido demandadas pelos alunos nas avaliações de curso feitas a cada semestre.

Áreas importantes de conhecimento na Antropologia, na Ciência Política, na Sociologia, na Demografia, na Filosofia e na História têm ficado desguarnecidas, por falta de docentes especialistas para ministrar aulas, coordenar pesquisas e orientar novos pesquisadores. Há linhas de pesquisa na pós-graduação e nos centros de pesquisa que tiveram uma produção acadêmica densa e expressiva que praticamente desapareceram por falta de professores plenos. Há cursos de pós-graduação que estão na iminência de fechar áreas e linhas de pesquisa, pois contam com apenas um professor. Não temos condições, portanto, de criar novas áreas de pesquisa que seriam necessárias para continuar a oferecer um ensino de ponta e acompanhar os avanços científicos e as novas demandas da sociedade.

Os Anuários Estatísticos da UNICAMP reconhecem nossa liderança intelectual e acadêmica: desde 2006, pelo menos, temos sido a primeira Unidade em produtividade intelectual em termos proporcionais (em relação à quantidade de docentes), e a segunda em termos numéricos absolutos. A CAPES também reconhece essa liderança, já que nossos programas de pós-graduação vêm conseguindo manter notas altas: um programa com nota 7, dois com nota 6 e quatro com nota 5; nos últimos anos, várias das teses defendidas no IFCH obtiveram prêmios da CAPES, do Arquivo Nacional e da ANPOCS. Esta liderança está sendo ameaçada pela estagnação de contratações e a conseqüente sobrecarga de trabalho; não é sem sacrifícios que vimos conseguindo manter a qualidade e a excelência do nosso desempenho acadêmico e científico.

O trabalho de pelo menos duas décadas, que resultou na excelência desse Instituto, está em sério risco de extinguir-se. O futuro é alarmante: em 2010 teremos 42 aposentáveis, 6 dos quais pela compulsória.  Com tantas perdas acumuladas, está em risco também a larga experiência do trabalho que conseguimos acumular até aqui. A formação de grupos de pesquisa demanda a construção de patamares comuns de trabalho conjunto, o amadurecimento de discussões e a consolidação de eixos de investigação. Essa não é uma tarefa que possa ser simplesmente transmitida por escrito: demanda convivência, laços institucionais e trocas intelectuais que não podem ser empreendidas da noite para o dia. Novos docentes necessariamente devem conviver com seus colegas mais experientes. A convivência é um modo de formar novos quadros e manter a continuidade na excelência da pesquisa e da docência que tem nos caracterizado.  Por isso mesmo, não é salutar uma reposição das vagas apenas em futuro indefinido ou diante de uma situação de quase-extinção de departamentos e linhas de pesquisa.

Sem dúvida, é preocupante nossa posição no cenário científico nacional. Sobretudo quando se assiste a uma incorporação crescente de novos docentes (muitos dos quais formados por nós) em outras universidades, através de concursos públicos: em breve o IFCH poderá perder pontos nas avaliações da CAPES, deixando de ser competitivo na disputa por recursos e na procura dos estudantes por uma formação de excelência.

Diante deste quadro alarmante, não basta simplesmente repor a perda de 40 docentes que sofremos nos últimos 15 anos. É preciso mais que isso. Queremos redimensionar o quadro docente de acordo com as necessidades acadêmicas de nossos cursos, considerando a expansão dos últimos anos, e assegurar a dinâmica criativa das linhas de pesquisa para continuar a desenvolver um trabalho de excelência. Precisamos ter a garantia de uma política de contratações: reivindicamos medidas urgentes para que possamos continuar a trabalhar. Estamos em ESTADO DE EMERGÊNCIA!

Os Docentes do IFCH

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