A demissão do dirigente sindical Claudionor Brandão, representa uma agressão à organização democrática das relações de trabalho dentro da Universidade. Com esta demissão corremos o risco de todos os trabalhadores ficarem com receio de lutar por seus direitos, fazendo com que se aprofunde a precariedade do trabalho (com baixos salários e péssimas condições de serviço) ou, ainda pior, intensificando os processos de terceirização e privatização em seu interior. Tal ação por parte da Reitoria deve, no entanto, ser vista em consonância com uma política geral que se coloca contra os movimentos sociais, que vem sendo atacados sistematicamente em nossa sociedade, sendo, inclusive uma forma de transferir para os trabalhadores o ônus da atual crise internacional.

O Sintusp é o sindicato dos funcionários técnico-administrativos da USP, diferentemente de outros sindicatos, ele se destaca na defesa permanente dos trabalhadores, indo até as últimas consequências em diversas lutas como nas greves de 2000, 2005 e 2007. Nos dias correntes a maioria dos sindicatos está ligado a centrais sindicais como a CUT e a Força Sindical, diferentemente do Sintusp, entidades que têm se caracterizado mais pela busca de conferir estabilidade a governos que defender interesses de seus associados.

Brandão não é mais importante do que qualquer outro trabalhador. Mas por seu trabalho em defesa dos trabalhadores é mais visado pela Reitoria (e por isso mais suscetível a sofrer retaliações). Uma das evidências disso ficou patente quando da ocupação da reitoria de 2007, lá foi encontrado um documento com a descrição dos passos deste dirigente sindical durante um dia inteiro, ou seja, tratava-se de um documento carregado da mais inequívoca arapongagem. Isso por si é condenável e torna-se uma aberração quando parte de gestores da principal universidade do País. Dirigentes que antes são acadêmicos (ou que supúnhamos sê-lo), devendo, portanto, pautar por uma conduta ética e primar pelo diálogo.

É preciso ter em conta que o sindicalista foi demitido por ações políticas respaldadas em decisões tomadas em conjunto pelos trabalhadores, todas referendas em assembléias. A primeira foi durante a greve de 2000, em que a reitoria juntou funcionários de vários restaurantes para abrir um deles. Houve um tumulto e, embora não se tenha encontrado provas de que o dirigente estivesse no local, ele foi punido por ter “concorrido” para o que aconteceu. A segunda foi em 2005, quando o diretor da FAU, a revelia da decisão dos funcionários, abriu a biblioteca e coagiu-os a trabalhar. Os funcionários mobilizados fecharam a biblioteca, várias foram os que entraram para conversar, entre elas o Brandão, depois acusado indevidamente de ter invadido a biblioteca da FAU na presença de estranhos, feito ameaças a funcionários, colocado em risco o patrimônio e o acervo da biblioteca e ainda desacatado o diretor da Faculdade. A terceira, em 2006, foi resultado do descontentamento com a uma empresa terceirizada da Faculdade de Educação, que realizou cerca de 100 demissões e cometia uma série de irregularidades contra seus empregados. Dentre elas constam trabalhar em péssimas condições e ser forçados a fazer suas refeições no banheiro, já que a chefia não permitia que estes almoçassem no restaurante da Faculdade. Organizou-se uma mobilização e abriu-se negociação na Reitoria. Neste episódio tentou-se impedir o Sintusp de representar esses funcionários, convocando apenas diretores do Siemaco (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo – esse sindicato é conhecido por sua atuação ambígua, muita das vezes agindo em favor dos patrões, não por acaso é chamado no meio sindical de sindicato “pelego”), que vieram munidos de bate-paus e agrediram os trabalhadores terceirizados da USP, deixando-os para fora da negociação. (É bom frisar: os terceirizados da USP foram impedidos de participar ou acompanhar a negociação). Forçou-se a entrada, inclusive por seguranças terceirizados e alguns vidros foram quebrados. O Sintusp pagou pelos danos causados, mas o diretor sindical foi suspenso sob a alegação de que estaria “defendendo interesses estranhos aos dos funcionários da USP”, cometendo assim um “desvio de sua função sindical”. Algumas dessas acusações simplesmente não procedem ou se colocam no sentido da mais escancarada alcunha. Cabe, no entanto, apontar pelo menos o fato de que o diretor do sindicato estava sendo solidário com questões que atingiam essa nova categoria de trabalhadores criada na Universidade (os “terceirizados”). Algo, aliás, que todos deveriam fazer.

Na Cidade Universitária circulam diversas versões para a demissão do diretor do Sintusp, mas essas razões, acima apontadas, são aquilo que de fato levou a reitoria a demiti-lo. Por fim, gostaríamos de relembrar que não é um indivíduo incompetente (no âmbito de sua atuação no trabalho) que está sendo demitido por “justa causa”, mas sim o que ele representa, isto é, o exercício democrático-político de defesa dos direitos dos trabalhadores. Sendo assim, sua demissão é antes de tudo política.

A demissão de Claudionor Brandão não mira especificamente nele, mas o verdadeiro alvo é o Sintusp, ou seja, o que os gestores universitários desejam é eliminar qualquer obstáculo ao crescente processo de precarização dos funcionários da USP, aliás, nenhuma originalidade nisto. Em São Paulo, sucessivos governos tucanos têm conduzido a uma desvalorização constante do funcionalismo público, justificado por um projeto privatista da coisa pública. Sendo os reitores meros prepostos do Palácio dos Bandeirantes, nada mais natural que sigam na USP a mesma política do Governo do Estado.

Por Universidade para quem?
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