A carta abaixo circula via e-mail. Não sabemos quem é o autor, mas supomos vir de funcionário da USP. Trata-se de texto com uma visão muito coerente e clara dos acontecimentos dos últimos dias envolvendo manifestações que beiram o fascismo. Por esse motivo o publicamos.

Alarme de incêndio no Butantã

Sobre indícios de manifestações neofascistas entre estudantes na USP.

Hoje estamos de plantão no sindicato devido à ameaça de depredação por estudantes da poli organizados em torno do CDIE (Comando de defesa dos interesses dos estudantes), mas soubemos de outros como um grupo anticomunista da FEA, e o apoio que recebem de parte das atléticas que vem arrancando cartazes e faixas por aí, mas hoje parece ser mais grave.

Sexta-feira ocorreram duas manifestações de estudantes que juntaram à noite 150 politécnicos, chamados pelos estudantes em torno do abaixo assinado contra a greve. Convidaram os estudantes que iriam ao bixop (festa de chopp realizada dentro da USP) e gritavam “morte ao Brandão !” e “usp sim, greve não”, mas devido a pressão antagônica de estudantes e funcionários, demoveram-se da intenção inicial  de invadir o Sintusp (Sindicato dos trabalhadores da usp).

Tentamos conversar de manhã com alunos na ECA (Escola de Comunicação e Artes) organizados em torno do abaixo-assinado contra a greve e pela destituição do DCE caso vote-se greve em assembléia, junto a eles havia um careca (movimento de jovens skin heads da ala nacionalista fascista) que saiu quando percebeu que seria hostilizado.

Estes também intencionaram atrapalhar a assembléia dos funcionários e fazer um piquenique no Sintusp.

Alguns deles se admitiam facistas, um destes se dizia a favor da tecnocracia, isto é, pelo fim da política e do governo da sociedade somente por técnicos (conforme disse peremptoriamente). Após conversarmos por horas tentando dissuadi-los e entendê-los, explicando como os estudantes se organizam politicamente, se eram maioria, para que colocassem então sua opinião em assembléia, e parecia que algo melhoraria, mas à tarde, descobri que o mesmo estudante havia pedido pela volta da polícia no campus e que batesse nos grevistas e que era favorável que a assembléia discuta, mas não que delibere.

Parece que são contra a participação direta onde confrontam-se com o que dizem e as conseqüências do que dizem preferindo instâncias virtuais de organização, como o Orkut, onde soltam seus juízos privados sem confrontarem-se com as conseqüências do que dizem ou indicam que se deva fazer. Do mesmo modo, “perdem a noção” quando acham que brincam como quando aparecem com cartazes escrito: “Morte ao Brandão”, “Fica PM no campus”, estes parecem não refletir sobre o que isto significa. Seja politicamente, seja sobre a dor de outro, mesmo que seja seu adversário.

À noite esperávamos pelo pior e juntamos extintores de incêndio e formas de alarme como fogos de artifício para avisarmos estudantes que estavam reunidos em outras unidades em plenária e não podiam estar ali no momento. Felizmente, quando dado o alarme os estudantes desceram e a manifestação recuou sendo confrontada com outra favorável às instâncias de representação dos estudantes na forma de “gritos de torcida” e “palavras de ordem” uma contra a outra.

Estamos lidando com militantes contra a greve que chamam atos e que são pautados pela imprensa. Apesar de que chamam suas manifestações de “Flash mobs” (palavra que tem origem nas manifestações anti-globalização), mesmo sendo chamadas por email e reproduzida na imprensa, como se esta a chamasse. A própria reitora os citou como referência de organização estudantil em artigo do jornal Folha de São Paulo, assim como outros, chamam à hostilização contra funcionários e estudantes é constante.

Porquê estudantes militam contra a representação e decisão de funcionários e estudantes se sua unidade não está em greve, é uma questão, como se fosse a favor da intervenção em outras unidades ou contra as instâncias de decisão, isto é, como se tomassem a decisão de anular as decisões das instâncias de participação direta estudantil, preferindo as indiretas. Do mesmo modo, parecem querer disputar a atenção da imprensa que muito os incentiva.

Uma aluna deste abaixo assinado de manhã, durante uma discussão havia dito que Hitler também era de esquerda. Foi interpelada sobre o que significava para ela esquerda e esta disse que Hitler era de esquerda porquê era a favor da intervenção do estado na economia.

São de formação fraca e acumulam os estereótipos de blogs de extrema-direita da internet, muitas vezes escrevendo tão mal quanto, como o estilo de recorte do texto do adversário para responder trechos aleatoriamente escolhidos, o que lembra também trabalhos de graduação de alunos “picaretas”. Quanto aos estudantes da Poli, entre eles, está ocupando uma função de liderança, como um tipo de orientador, um estudante da história apelidado de “Malufinho” que quando interpelado anteriormente sobre sua participação no grupo, havia negado à chefe do departamento de história.

Também estava envolvido no caso da estudante que chamou a polícia na história contra os piquetes e que gritaram “Fica PM!” no prédio de História/Geografia, aliás, segundo consta, era sua namorada.

Por que com tantas armas a Polícia Militar precisaria de apoiadores? Por que a estrutura de poder da USP que se mantém por si só e parece intocável precisa de apoio de algum tipo de base?
Por que quem não participa do staff acadêmico precisaria apoiar o mesmo contra quem este massacra e precariza o trabalho? Por que tal defesa da normalidade das funções acadêmicas quando o que mais querem é, no caso de muitos deles, realizar atividades esportivas, jogar truco e tomar cerveja (ou Chopp, no caso do Bixop) como muitos dos demais estudantes, apesar de agirem como se amassem as aulas e a instituição que lhes dá certo reconhecimento social.

Tais militantes pela ordem se aglutinam em torno do reconhecimento que a própria reitoria e os jornais e blogs de extrema direita lhe dão, enquanto acontece o conflito franco no seio do movimento estudantil.

Assim, coisas que seriam corriqueiras passam a incomodar o estudantado em fúria por… normalidade. Tal desejo de revolta pela hierarquia, pela instituição que estaria lá sem a participação de sua mobilização pela ordem. Assim como sua mobilização a favor do uso da força policial contra pessoas desarmadas só porque estes, junto com alguns professores, identificam como a fonte do mal da universidade. Justamente estes que se levantam contra a precarização do trabalho, a estrutura de poder viciada da universidade, sua privatização, sua violência e seu elitismo.

De qualquer forma, abriu-se a caixa de pandora e soa o alarme de incêndio no inóspito jardim do butantã.

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