Aconteceu hoje por volta do meio dia, manifestação convocada por e-mail e redes de relacionamento, sob o título “Greve da greve”. Cerca de 100 pessoas apareceram na prainha da ECA, dirigindo-se depois até a sede do Sintusp, onde ocorria assembléia de funcionários, com aproximadamente 700 pessoas, para protestar contra a greve de funcionários, estudantes e professores. Segundo um dos organizadores, em declaração para o portal UOL, “A ideia não era fazer número [volume], mas vir fazer uma manifestação pacífica [Segundo relato, havia cartazes com os dizeres: “Volta PM” e “Chupa Brandão”]porque não aguentamos mais as greves que ocorrem todos os anos”, contou Gustavo Daineze, estudante da ECA (Escola de Comunicações e Artes). “Sistematicamente temos nossos cursos prejudicados.”. Ok. Legal. Bacana. Os que se colocam contra a greve têm todo o direito de fazê-lo, ninguém nega, tampouco os que fazem greve.

Ouvindo-se fora de contexto ou de forma acrítica, pode-se cair no erro de achar que a greve é feita pela greve, sem nenhuma razão fora dela mesma.

Ora, se o senhor Gustavo Daineze não agüenta mais greves, igualmente os que fazem-nas aguentam menos ainda. O transtorno não é só de quem está fora, mas é principalmente daqueles que se propõe a lutar por algum ideal ou simplesmente por melhorias em suas condições vida. Mais, por melhorias da própria universidade, melhorias essas que beneficiam os que fazem e os que não fazem greve, quando esta é vitoriosa. Afinal, não é fácil se expor, reivindicar e depois correr o risco de perder o emprego, perseguição, corte no salário, assédio moral, processo, bombas de concussão e de gás lacrimogêneo e toda forma de repressão que tem recaído em cima dos movimentos sociais, cada vez mais cerceados no seu livre direito de manifestação e luta. Tudo para que a máquina continue, independente das vidas que ela despreza, mas das quais ela precisa dóceis, sempre dóceis.

Se perguntarmos para cada um dos cansados (um nome mais apropriado, em vez de “Greve da greve”, seria “Cansei”. Qualquer semelhança talvez não seja mera coincidência) de greves, se sabem os motivos que movem tantos à luta, provavelmente desconhecem a maioria senão todas, como portas fechadas dezenas de vezes pelos gestores universitários quando procurados para receber demandas de funcionários, estudantes e professores, acordos rompidos e mudanças implementadas sem nenhum diálogo. Também é provável que sequer saibam de reuniões do CO e Congregações, onde foram tomadas decisões ao arrepio do próprio regimento. Ou ainda, que os funcionários alocados no prédio da reitoria sofrem assédio moral para não entrar em greve. Enfim, não sabem nada, mas são contra o que não sabem, e por quê? Esta é uma pergunta interessante de se responder, posto que acreditamos que essa manifestação revela o entorpecimento de consciências. Pessoas já completamente enredadas no individualismo extremo, na crença cega na economia de mercado, preferem agir olhando para o próprio umbigo, recusando a ação coletiva e a crítica social. Ou seja, “se comigo está tudo bem, que se dane o outro”.

Por outro lado, estamos numa universidade, que deve questionar a si mesma antes de investigar qualquer outra coisa. Afinal, como fiz o professor Franklin Leopoldo e Silva “Se não colocarmos a própria universidade em questão, que sentido teria colocar em questão qualquer outra coisa a partir da universidade […] a partir de uma certa inserção histórica e cultural que se expressa numa determinada maneira de investigar, de conhecer e mesmo de propor condutas?”. Ao que nos parece, a “Greve da greve” não deseja pensar a universidade, parar para questioná-la, mas tão somente pegar o canudo, se inserir no mercado e garantir sua parte no latifúndio, no caso deles, minilatifúndio, mesmo estando dentro de uma universidade PÚBLICA. E isso não é pensar no existente e confrontar-se com a realidade.

Só podemos concluir que nisso vai um tanto de embrutecimento da consciência, portanto, uma alienação profunda da realidade, que só podemos lamentar. Não estivéssemos numa das nações mais desiguais do mundo, na universidade pública mais autoritária e autocrática do Brasil, ainda assim teríamos o que lamentar.

Alguns dizem que não deveríamos dar importância para manifestações motivadas pelas razões expostas. É preciso cuidado. É preciso aprender com a história. Muitas das vezes, a indiferença de povos inteiros e depois seu cansaço alienado, permitiu a existência de regimes fascistas, camisas pretas e afins. Portanto é preciso confrontá-los, não fisicamente, que isso é o desejo de alguns que estão contra a greve, para inverter os fatos, transformando vítimas em algozes. Mas confrontá-los numa luta permanente por justiça e igualdade, sem jamais vergar, sem jamais desistir.

Por Universidade para quem?
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