(Texto escrito pela profª drª Ana Fani Alessandri Carlos, que circulou livremente pela internet)

Pois é, não dá para entender nossa sociedade ignorando o sentido e os usos do espaço. As barricadas delimitam, organizam o fluxo, impedem o uso e a apropriação pelo corpo. Mas também nos obrigam a pensar o que as motivam. Podemos, inicialmente, inverter o raciocínio e dizer que a violência é a necessidade das barricadas não sua existência.

Elas nos obrigam a reflexão. O que as motivam é a necessidade de, diante de arbitrariedades, exigir o debate, fazer-nos emergir de nosso trabalho cotidiano, por vezes alienante, para pensar a universidade e os seus rumos, bem como o conteúdo de nossas atividades.

Policia no campus!Isso sim, fere os mais importantes princípios que fundamentam a existência da universidade, princípios estes, que a ditadura sempre desprezou e, que nossa reitora, parece desdenhar. Até alguns alunos acham necessária a presença policial no campus; aprenderam com quem?

Tristes tempos! Obriga-nos pensar na degradação da universidade e na necessidade de pararmos tudo para refletir sobre nossas atividades, projetos e compromissos.

Um primeiro passo parece importante: se acreditamos minimamente na necessidade/importância da democracia é absurdo questionar o ”direito de greve” e de suas manifestações. Estes são momentos de realização concreta da democracia, do exercício do “direito à diferença”. Quando se interrompe o debate arbitrariamente, impedindo avanços, a greve se torna legítima. O difícil sempre foi aceitar a democracia na prática da vida cotidiana, basta ver a pérola do jornalista do SBT “essa gente deveria levar tiro” da polícia, referindo-se aos
funcionários grevistas da USP ou o argumento que compara piquete com tropa de choque.

Aqueles que reivindicam em nome do coletivo, por uma sociedade melhor ou por uma universidade que repense seu papel na sociedade, como “exercício de liberdade”, têm sido criminalizados. É típico do projeto autoritário.

É difícil aceitar o diferente, principalmente numa sociedade que impõe o individualismo como único “estilo possível de qualidade de vida”. No mundo do produtivismo acadêmico é difícil entender as lutas em defesa da universidade livre e democrática aonde o debate e o exercício da diferença possam ser exercidos com dignidade e ética. Mais, como compromisso social.

Lembremos: a universidade deve garantir condições para a realização de um processo de conhecimento baseado no pensamento crítico que apóie o desvendamento dos caminhos a serem seguidos, fundamentados em múltiplas visões de mundo.  O exercício de liberdade é o único meio de descoberta, sem essa base a produção do conhecimento se empobrece e, com ela, a própria sociedade. Isto porque o ser humano guarda múltiplas dimensões, seu processo de constituição é sempre aquele da criação, recriação, superação.

A constituição do cidadão passa pela afirmação de sua condição humana em todas as suas dimensões o que significa, inclusive a capacidade de incorporação da  ciência e da arte. Passa pela afirmação de sua condição humana, capaz de concebê-la em todas as suas dimensões; abdicar dessa situação é simplificar o papel do conhecimento no processo de constituição da humanidade do homem – um conhecimento que amplia as possibilidades de realização do homem enquanto sujeito da história e de entendimento da história em seus nexos visíveis e invisíveis. A formação do cidadão passa, necessariamente, pelo exercício do conhecimento. O exercício da liberdade advém da capacidade do cidadão de conhecer o mundo ao qual pertence e esse processo de conhecimento é sempre uma atividade que se desenvolve metodicamente. Conhecer é criação, é inovação é assumir riscos – todos eles presentes na atividade prática do conhecimento.

É preciso estar atento para as transformações e para isso é preciso haver liberdade para pesquisar e pensar par levantar problemas, para questionar os rumos da sociedade e da universidade.

A pesquisa é um desafio constante para nós, representa, concretamente a possibilidade de descoberta de nossa condição no mundo  exercida de modo livre. Por sua vez o aprendizado deve permitir a atuação plena da personalidade do ser humano e a tomada de consciência da realidade concreta em que vivem os homens e das contradições que dela emerge, permitindo ou bloqueando a mudança. A pesquisa é ela própria um desafio e representa concretamente a possibilidade de descoberta de nossa condição no mundo  que deve  ser exercida de modo livre.  Por sua vez o aprendizado deve permitir a atuação plena da personalidade do ser humano e a tomada de consciência da realidade concreta em que vivem os homens e das contradições que dela emergem.

A reflexão e o debate se impõem como condição indispensável da existência da atividade acadêmica e se revelam enquanto tempo lento; um tempo não submetido a prazos delimitados e definidos por réguas de “produtividade“ que marca o mundo da mercadoria. O tempo lento é aquele amadurecimento das idéias e da gestação – e é das relações entre estas que os ramos do conhecimento se diferenciam; nas ciências humanas, por exemplo, as relações entre sujeitos e objeto não se  tecem em Laboratórios.

Na contramão do sentido da produção do conhecimento, como tempo lento, nos deparamos com a imposição do que podemos chamar de um “tempo produtivista” que invade a pesquisa de fora para dentro, requerendo respostas rápidas, criando o pesquisador “eficiente“ e a pesquisa “competente”. Eficiência e competência são os requisitos básicos para suprir as demandas do mercado, por isso mesmo, junto com a eficiência, produz-se a sua própria obsolescência, posto que o atendimento das necessidades de modernização da economia e  do crescimento é comandado pela competitividade num mercado sempre mais ávido de inovação.

A universidade presa ao universo mercantil produz o saber técnico para instrumentalizar uma estratégia política que dá a aparência de compromisso dos poderes públicos e empresariais com a sociedade, travestido no discurso da ação direcionada aos “interesses da sociedade“. Deste modo o projeto  utópico e possível se transforma num cronograma de prazos a serem seguidos a partir de metas estritamente delimitadas e competentemente perseguidas, sob o discurso de aproximação universidade/sociedade.

Essa situação marca o empobrecimento de nossa sociedade cada vez mais definida nos limites estreitos da sociedade de consumo onde o indivíduo é medido pela quantidade de informação que tem. Obscurecida a necessidade de desvendar as contradições do mundo moderno, – cuja crise produz dentre outras coisas a extinção dos empregos – pela produção do conhecimento do mundo, estabelece-se a confusão entre a formação de profissionais para o mercado de trabalho (cada vez mais dominada pelos quesitos técnicos) e formação do cidadão criativo e livre capaz de pensar um projeto de mudança social.

Invadida pelo imediatismo e utilitarismo a Universidade se empobrece e abdica de seu papel de pensar criticamente o mundo desfocando seu horizonte do “homem“, para  o mercado. O modelo que elimina as diferenças e as possibilidades contidas nessas diferenças – que são substancias no uso de tempos e espaços na Universidade – sufoca a construção da sociedade plural  pela imposição e afirmação do idêntico e do conhecimento como reflexo de um padrão estabelecido.

Lembremos ainda: a universidade só pode existir no respeito à diferença como padrão básico de comportamento, no estabelecimento de uma união profunda entre professores/alunos e funcionários em luta por uma outra sociedade o que requer a defesa da universidade.

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